A Arte de Perder!

Adriana Correia

Bisturi Cronista 


A arte de perder não é difícil de perceber. Porque perdemos tanto pelo caminho e a sua perda nunca se transforma num desastre.

Quando parte da minha vida preencheu uma mochila de cinquenta litros da Decathlon, eu percebi que tudo pode desaparecer. Aquela minha carteira preferida, aquela escova de cabelo grande e macia, as minhas botas ou sandálias preferidas ou o meu carregador portátil do telemóvel. E são perdas seguras.

Ao início senti aquela necessidade de substituir estas coisas como se pudesse substituir o conforto de casa. Mas foi logo nas primeiras semanas que percebi a natureza transitória das coisas. Porque sofremos para ter coisas. Desperdiçamos do nosso tempo. E colocamos a nossa felicidade em segundo plano. Mas foi logo nas primeiras semanas que percebi a natureza transitória do meu tempo.

E as histórias das pessoas começam a surgir e a misturar-se com as minhas. Repeti vezes sem conta o que penso que sou e o que fiz ao nível académico e profissional em Portugal. Porque nunca vivi num outro país. Apesar de farta algumas das vezes, noutras senti um calor estranho e inexplicável. Daquele calor que só a empatia provoca.

Mas a perda faz sempre parte de nós e damos por nós a sentir saudades de coisas mundanas da nossa antiga vida, da minha casa de banho ou do meu escritório, da minha estante de livros ou de sorrisos.

Depois existe aquela suspeita de que nunca mais conseguirás sentir-te na tua própria casa. E que a tua casa será qualquer uma onde sentirás que pertences. E a experiência continua. E tu vais mudando. Sem te aperceberes. E mesmo que digas que irás sempre voltar, a tua obsessão em partir será permanente.