Amigalhismo Crónico

‘Amigalhismo’ Crónico: Queremos meritocracia mas não a promovemos

A cultura do mérito ou a falta dela é um tema cada vez mais em voga nos dias de hoje.

A população descontente com as políticas de austeridade, com a emigração jovem, com o crescente aumento do desemprego, em cruzamento com os sucessivos escândalos de corrupção política a que temos assistido, revolta-se cada vez mais com as altas esferas da sociedade e com o núcleo do poder nacional.

Não é difícil ouvir pela rua expressões tais como “jobs for the boys”; “só se governam a eles próprios”, entre outras…

Amigalhismo Crónico: queremos meritocracia mas não a promovemos

Mas o cidadão muito raramente pára para pensar que os que estão lá em cima já estiveram cá em baixo, e que tais comportamentos que desaprovamos talvez tenha na sociedade o seu condão de culpa e promoção.

Sim, caro leitor nós somos promotores de amigocracia ou se preferir cunhocracia.

De que forma?

– Viajemos a uma empresa x, em que é necessário um novo funcionário.

Qual é em Portugal a primeira pergunta que percorre os funcionários dessa empresa?

– Conhecem alguém para a vaga de emprego?

Será comum alguém ter um familiar ou um amigo para dita vaga, desta forma a maioria das oportunidades de emprego nunca chegam à sociedade.

– Acha justo? Promove a meritocracia ou a amigocracia?

Outro exemplo simples será refletirmos no nosso amigo y que não nos fala porque não empregamos o seu filho ou sobrinho.

E por último, a quem recorreria se ficasse desempregado?

Qual seria o classificado ao qual recorreria?

A sua lista de amigos ou os velhos classificados de jornal?

Sim caro leitor a nossa sociedade é profundamente cunhocrata.

Cunhocrata no emprego, cunhocrata na saúde, cunhocrata em tudo o que é serviço social.

– “Não conheces ninguém nas finanças que me ajude?”

Será um dos muitos exemplos do nosso quotidiano.

Antes de nos revoltarmos com os boys devemos focar a nossa “revolta” em nós próprios e nos nossos pares.

Nós somos os principais promotores da cunhocracia; sofremos de amigocracia crónica.

Devemos limar este vértice social para o transformar.

A Meritocracia só existe quando o cidadão comum a promove no seu quotidiano.

Quando reconhecemos o talento, a criatividade e a capacidade de trabalho do outro.

Já dizia S. João Baptista: “Que eu me diminua para que ele cresça”. E este ‘ele’ é a nossa própria sociedade.