Bebé Salvador, bebé esperança!

Bebé Salvador, bebé esperança!

Perplexidade.

Foi com uma profunda perplexidade, que li em muitos dos jornais nacionais o título “nascimento do primeiro bebé-medicamento em Portugal”. Espera-se rigor e sensibilidade por parte de quem informa sobretudo em temas delicados como a doença e a vida. Naturalmente que grande parte dos comentários do público atento nas redes sociais foi de horror, perante uma situação que tem tudo de altruísta e de positivo.

Na realidade aquilo que aconteceu foi que o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) autorizou pela primeira vez em Portugal, a escolha de embriões em laboratório compatíveis com a filha doente de um casal.

Este casal tem uma filha de cinco anos de idade que necessita de um dador compatível de medula óssea para sobreviver.

O diagnóstico genético pré-implantação é um processo em que embriões obtidos em laboratório por fecundação in vitro são avaliados geneticamente e em que, depois de um processo de escolha, os que são seleccionados são transferidos para o útero da mulher.

A mesma técnica de fecundação in vitro permite um duplo diagnóstico, capaz de evitar o nascimento de bebés que padeçam de doenças genéticas graves como as reveladas no irmão vivo.

Em Portugal esta técnica é permitida apenas por razões médicas e em poucas situações. Uma delas é em caso de risco de transmissão de anomalias ou doenças genéticas graves, por exemplo no despiste da paramiloidose (doença dos pezinhos) sendo transferidos apenas embriões não portadores da doença.

Assim, pela mesma técnica de fecundação in vitro é realizado um duplo diagnóstico, que permite evitar o nascimento de bebés que padeçam de doenças genéticas graves como as reveladas no irmão vivo.

Estes mesmos procedimentos são utilizados em Espanha, França e Reino Unido.

Qual é o horror afinal em tudo isto?

Inclusive vou mais longe. Deveriam os conselhos de ética mundiais abrir esta possibilidade não apenas para situações cuja cura da criança doente está seriamente comprometida, mas para todas as situações em que um casal demonstre desejo e condições sócio económicas para ter um segundo filho que permita salvar o seu filho doente, sem este ter de passar pelo sofrimento atroz inerente ao tratamento de muitas destas patologias.

Neste caso falamos do nascimento de uma vida, de um segundo filho. Não de um bebé medicamento!

Quanto muito, poderemos apelidar esta nova vida, este filho como bebé salvador ou bebé esperança que ao nascer e sendo compatível com o seu irmão permitirá salvar o filho do casal.

Que as questões da ética humana sejam levantadas em temáticas como a clonagem e outras que nos façam refletir na vida, na unicidade do indivíduo e no papel do homem no mundo, tudo bem.

Agora que se entrave a Medicina na sua missão, Não!!!

A Medicina, a mãe das ciências da vida, existe para tratar a doença incurável, aliviar o sofrimento, e dar ao Homem qualidade de vida, para poder viver no usufruto de todas as suas capacidades.

A Medicina não só salva vidas, como as mantém.

Travar a vontade de um casal ter um segundo filho, travar a vontade de um casal salvar o seu filho, não cabe à vontade de nenhum homem à face da terra.

É uma decisão dos progenitores. À Medicina cabe o cumprimento da sua missão: salvar vidas e contribuir para o nascimento de novas vidas.

Todas as questões inerentes a uma possível instrumentalização através da selecção de um embrião, não fazem o menor sentido. As mesmas referem que o embrião pode ser visto como um meio e não como um fim dado que será implantado se for compatível com o ser humano a quem se destinam as células.

Refere-se isto porque o filho não é nosso. Refere-se isto porque na possibilidade de evitar uma anomalia genética grave num segundo filho, o filho também não é nosso. Não somos nós que sofremos com as doenças destas crianças.

A questão ética da instrumentalização é claramente relativa. Quantos casais têm um segundo filho, porque o primeiro filho demonstra um desejo forte em ter um irmão?

Porque podem estes pais decidir ter este segundo filho?

Na realidade nunca temos filhos por razões puramente altruístas. Podemos ter uma criança por motivos puramente egoístas. Não existe nenhuma razão para que este bebé salvador seja menos amado porque salvou o irmão, bem pelo contrário. Estabelece assim um elo forte com o irmão.

No fundo, é muito fácil levantar mil e uma polémicas éticas quando nós próprios não somos confrontados com o problema. Se um filho nosso viesse a morrer, será que nos perdoaríamos por não termos feito tudo o que era possível para o salvar.

Haveria perdão para a própria Medicina, não ter salvo esta vida humana.

Não ter cumprido a sua missão. Não ter aproveitado aquilo que é a sua caminhada. A inovação, o desenvolvimento. Em suma, o seu progresso a favor da vida.

A favor do Homem!

Não, não haveria perdão.