Bons trabalhadores fazem-se com bons salários

 

André Tavares Moreira

Bisturi Embaixador/Cronista


Salvo raras exceções, como o da Padaria Portuguesa, é do entendimento geral que os salários em Portugal são muito baixos, o que na minha perspetiva, impedem qualquer hipótese de contínua melhoria na qualidade de vida.
O título é de Miguel Sousa Tavares, e, no contexto português não poderia estar mais certo. Ainda assim, diversos estudos, a nível mundial, na área dos recursos humanos têm demonstrado que para os trabalhadores não só o salário é fator único para a atratividade. A criação de creches para os pais com filhos, a oferta de avença de ginásio para o trabalhador, a flexibilidade do horário do trabalhador ou a valorização pelo trabalho desenvolvido são alguns exemplos.
No panorama português acredito que os baixos salários se reconduzem, em certa medida, à ausência de valorização pelo trabalho desenvolvido.
Primeiro porque a valorização tornaria as organizações meritocráticas, o que, no contexto português ainda é visto como algo ideológico. Hoje em dia, quando o trabalhador faz bem, cumpriu a sua obrigação. Quando o trabalhador faz mal é o culpado de todos os males da organização. Este caso típico e iminentemente cultural tem resquícios em diversos ramos da nossa vida. Por exemplo, os comentadores televisivos. Quantos deles elogiam boas decisões? Quantos deles propõem soluções alternativas? Quase nenhuns. Veja-se o adorado Marcelo e Marques Mendes que se especializaram em criticar aos domingos à noite.
Segundo porque a nossa carga fiscal e contributiva não estimula a criação de rendimento dos particulares. Veja-se o verdadeiro esbulho fiscal com que são tributados os rendimentos do trabalho ou a forma como é cobrada a TSU.
Mas o que estou a fazer eu senão apontar o dedo? Pois bem, enquadrar o tema para fazer uma reflexão pouco ortodoxa.
Uma vez que o primeiro motivo é cultural, abordarei, apenas e tão só, parte do segundo. O pagamento da TSU por parte do empregador.
Uma dos assuntos na agenda dos Governos – quer o atual, quer o anterior – é a alteração da TSU, sempre falando de alterações de 1%, mais coisa menos coisa. Alterações desse montante poderão ter impacto para empresas com milhares de trabalhadores, mas não será relevante em empresas com poucos trabalhadores. E, ainda que mexidas desse valor possam representar grandes montantes no orçamento de Estado, não representam grandes montantes para as empresas.
Ora, se o Estado pode utilizar a máquina fiscal para evitar comportamentos também pode utilizar para estimular comportamentos.
Convém é que se pense bem no real impacto dos estímulos, sob pena de uma boa intenção redundar no impacto pífio. Por exemplo, o incentivo à aquisição de viaturas elétricas e híbridas tem efeitos positivos, sobretudo, nas indústrias automóvel Alemã, Francesa e Nipónica.
Assim, na temática dos salários, porque não a criação de taxas regressivas de TSU (a paga pelo empregador) em que quanto mais se pague ao trabalhador, menor será a taxa a pagar?
O debate dos salários que se costuma travar em Portugal esbarra apenas e tão só na temática do salário mínimo, habitualmente sob uma aura de demagogia intratável.
Em Portugal, no ano de 2016, cerca de um ¼ dos trabalhadores por conta de outrem auferia o salário mínimo. E os outros ¾ ? Não merecem ver o seu salário melhorado?
Eu acredito que os incentivos fiscais e contributivos ao pagamento de melhores salários deve ser o caminho a adotar, mas também necessitamos de uma mudança cultural.
É necessário olhar para os trabalhadores como os obreiros de sucesso de uma organização. Se um bom patrão pode ter a capacidade de motivar as tropas e produzir bons resultados para a sua empresa, então parte desse sucesso deve ser partilhado com os seus colaboradores, seja através de prémios, seja através da melhoria dos salários.
Gostava mais que se discutissem formas e métodos para melhorar os salários, do que saber se o Benfica mandou ou recebeu o e-mail, se um deputado do PS comemorou a revolução bolchevique ou se Sócrates mandou pintar o telhado ou o chão da casa de determinada cor.