Cão que ladra não morde, mas escreve com os cotovelos!

Ana Regina Ramos

Bisturi Embaixadora/Cronista


Fora polémicas televisivas, políticas ou de justiça, há um outro fenómeno crescente que está a ser esquecido, mas merece ser estudado a fundo porque acaba por espelhar a nossa sociedade: a arte do comentário.

É certo que o ser humano, muitas vezes, expressa-se melhor pela escrita do que por palavras ditas.

No entanto, nos últimos anos, com a crescente utilização da internet e redes sociais, tenho notado também um aumento de discussões online – a maior parte sem qualquer sentido, diga-se.

Insultos, superficialidade, críticas agressivas que, por vezes, nem sequer correspondem à verdade e até pontos de vista bastante inusitados e cómicos…

Lê-se de tudo nas caixas de comentários a notícias, posts no Facebook e outro tipo de sites!

Eu lido o dia inteiro com a internet, produzo conteúdos para lá e observo com atenção a repercussão de cada trabalho. Cada dia fico mais incrédula com o ponto a que chegam certos conflitos que se criam por meras palavras escritas, sabe-se lá por quem, ou de onde e com que finalidade.

Vamos lá ver, tudo acontece desta forma repentina motivado, em grande parte, pela forma tão imediata com que algo publicado online chega a qualquer pessoa, mas também pela forma tão incrivelmente assustadora com que o ódio e a crítica não construtiva ganham tanto poder nas mãos das pessoas que estão à frente de um computador ou telemóvel.

Imaginem, aquilo que se passa nas caixas de comentários, se fosse transportado para a realidade física, era como que, em cada esquina do nosso local de trabalho, se abrisse uma janela e uma pessoa gritasse: “Mas que m**** é esta?”; “Que tal aprenderem a escrever?” e tantos mais insultos bem mais graves…

É assustador, mas, ao mesmo tempo, é fácil perceber que 90% desses comentários não se transpõe para a realidade – a maior parte das cabeças por detrás de cada palavra que fere, não tem sequer coragem para matar uma mosca – são os chamados “cães que ladram, mas não mordem”!

Ao mesmo tempo, é algo triste de se compreender porque demonstra que o ser humano gosta de causar sofrimento ao outro pelo simples gozo de “ver a casa a arder” e de poder libertar frustrações e noites mal dormidas.

Entretanto, espreitei uma análise do jornal “The Guardian” a 70 milhões de comentários, produzidos ao longo de 17 anos no seu site, no espaço a seguir aos artigos. Além de ler que mais de um milhão deles foram bloqueados por serem incompatíveis com os padrões de educação do jornal, percebi que, independentemente do tema, os artigos que tinham mais comentários abusivos eram escritos por mulheres!

Isto representa a realidade do “The Guardian”, mas, certamente, a de muitos jornais online, páginas de redes sociais e outros sites que contenham espaço para comentários.

A maior parte das entidades prefere não ligar, ou desativar essa funcionalidade. E, na verdade, o melhor a fazer é mesmo ignorar os insultos porque, caso contrário, viveremos presos a uma realidade virtual monstruosa que não passará do ecrã e porque temos de ter confiança no bom trabalho que fazemos.

Outro dos exemplos que achei uma inteligente forma de analisar (e, ao mesmo tempo, de se aproveitar) este fenómeno de “escrever com os cotovelos” foi uma rubrica num canal de YouTube de um humorista, que consistia em escrever críticas negativas bastante fortes, mas aleatórias (de forma irónica) em fotografias de várias celebridades publicadas no Instagram.

O objetivo era observar a reação das comunidades de fãs do famoso em questão e também das restantes pessoas que viam tal comentário ridículo.

Adivinham qual foi o resultado? Imensos comentários e mensagens privadas expressando ódio, discussões e insultos com uma intimidade tremenda e até ameaças de morte!

Não há qualquer dúvida de que todos somos livres de dizermos o que pensamos e isso nem sequer está em causa, mas e a empatia? E o respeito? E o bom senso?

Não estou a querer dizer que a internet é que trouxe este tipo de comportamentos, falsidades e superficialidades, mas sim que este fenómeno de expressão de ódio por razões mínimas é preocupante e cada vez piora mais.

É muito fácil apontar o dedo na cara do outro quando entre nós existe um teclado!