Cravos em balanças equilibradas

Ana Regina Ramos

Bisturi Cronista


Estamos na semana em que faz 43 anos desde que Portugal mudou para sempre o rumo da sua história.

A liberdade e os cravos pairam no ar e estão em todas as esquinas.

Foi no ano seguinte à Revolução dos Cravos que os portugueses votaram pela primeira vez livremente desde há muitas décadas e foi também nessa altura que as mulheres tiveram direito de voto universal.

Até aí, só tinham acesso às urnas com o equivalente ao curso de liceu (o que é hoje a escolaridade mínima obrigatória) – mas perdiam o direito se fossem casadas com um marido com capacidade eleitoral -, ou se fossem “chefes de família” (por viuvez ou marido ausente).

Em Portugal, as mulheres votam desde 1911, já a Nova Zelândia foi a pioneira, em 1893. Contudo, sabiam que a Arábia Saudita foi o último país no mundo a permitir o sufrágio feminino apenas no final de 2015?

Num país, em que as mulheres se devem vestir de preto da cabeça aos pés quando estão em público e necessitam da permissão de um membro masculino da sua família para viajar, trabalhar e casar, acho uma grande conquista.

Mas a questão é que estes direitos (ou quaisquer outros!) já nem deveriam estar em causa se são ou não alargados às mulheres.

E não se espantem porque, em Portugal, já vivemos tempos muito semelhantes. Felizmente, não na minha geração, nem da minha mãe, mas, sim, na das minhas avós e bisavós.

Até 1974, as mulheres portuguesas que quisessem sair do país tinham de pedir permissão ao marido, se não fossem virgens à altura do casamento podiam ser repudiadas por ele e se fossem apanhadas em flagrante a cometerem adultério, o cônjuge podia matá-las, sofrendo apenas uma deportação de 6 meses!

É certo que isto é passado, mas é importante conhecermos as realidades anteriores para não voltarmos a cometer os mesmos erros e, sinceramente, ainda temos um longo caminho a percorrer, não só em Portugal, mas no resto do mundo.

A mulher ainda é discriminada em muitas áreas e é, por exemplo, a maior vítima de violência doméstica em Portugal. Segundo dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), 80% das vítimas das ocorrências registadas No ano passado eram mulheres e os agressores eram predominantemente do sexo masculino (cerca de 84%).

Mas aqui há também que lembrar que as mulheres são as vítimas mais frequentes e em número mais elevado (dos casos registados efetivamente), mas há muitos casos de violência doméstica contra homens que não são denunciados, muitas vezes, por vergonha.

Isto devido a todo um conjunto de estereótipos que são criados à volta do sexo masculino e feminino.

Mas, afinal, o que é, por exemplo, “correr como uma miúda”?

Será que é correr como a Rosa Mota quando ganhou a Medalha Olímpica em 1981?

Um rapaz que “pareça um ‘maricas’” significa que tem falta de coragem, mas é muitas vezes associado, no sentido pejorativo, a um homossexual, que, por isso, é tido como mais feminino e, por isso, dizem, mais frágil.

Primeiro, não nos podemos esquecer que os super-heróis que salvam o mundo só existem nos filmes.

Depois, um homem homossexual não se torna mais fraco por não se sentir atraído por mulheres.

E como é que a mulher, que sofre com dores do parto, da menstruação, desdobra-se, muitas vezes, em mãe, esposa e profissional, é considerada o sexo frágil?

E, além disso, porquê que se olha para a mulher e pensa-se que é ela que tem que cuidar da casa e dos filhos?

Atualmente, assiste-se a cada vez mais mulheres que optam por ter também a sua carreira e querem ser bem-sucedidas no emprego.

Em Portugal, um estudo publicado pelo Centro de Estudos de Emprego, sediado em Paris, indica que a maior parte das mulheres com formação superior está empregada, o que pode significar, muitas vezes, (e com toda a liberdade!) que algumas delas optem por não terem filhos e apostem apenas em carreiras de sucesso.

Ultimamente, o tema da igualdade de género anda nos títulos de muitos jornais, no feed do Facebook e até tem passado a discussão na Assembleia da República.

Ainda na semana passada, por exemplo, o jornal Público afirmou que o Governo está a preparar uma lei que penaliza as empresas que não cumpram critérios de igualdade salarial entre homens e mulheres que desempenham as mesmas funções.

A lei deve avançar já para a semana e as empresas que não cumpram o disposto podem ser excluídas dos contratos com o Estado.

É certo que muita coisa mudou para melhor desde o 25 de Abril, mas há muitos cravos ainda por florir neste Portugal já quarentão.

Fala-se mais do lado das mulheres porque, como ouvi uma vez, “atualmente é o que tem menos fichas” e é necessário um equilíbrio da balança dos direitos e deveres entre géneros.

Ana Regina Ramos