Crónica do des(governo) !

Teresa Morais

Bisturi Cronista


Um mês depois da tragédia de Pedrógão Grande, deixo neste espaço algumas considerações em relação à surreal tragédia que assolou o nosso país.

Queria ter escrito este artigo há mais tempo. Mas, infelizmente para o meu país, o ridículo tem sido renovado a cada telejornal, a cada conferência de imprensa, a cada declaração do Governo.

Antes de começar, sublinhar que nada disto é pessoal. Choca-me, por exemplo, a crítica às lágrimas da Ministra ou o insulto gratuito à pessoa de Costa.

O meu país não é assim. Pelo contrário, no meu país é proibido criticar uma certa esquerda, é proibido pedir responsabilidades, é proibida a indignação. Muitos disseram, a certa altura, que era tempo de respeitar o luto. No entanto, os verdadeiros afectados, os que realmente estavam em período de luto, falavam de abandono, de mortes evitáveis, pediam justiça. Este é, também, um país que não ouve os seus, principalmente quando as vítimas vêm do centro, do interior, ou de alguma coisa que não seja Lisboa, Porto, e ali um bocadinho do Algarve onde os ditos alfacinhas e portuenses passam férias. Uma tristeza.

Um país é pouco democrático quando ignora o apuramento das responsabilidades para criticar quem se indigna, para calar as perguntas, para se envergonhar com a indignação dos que exigem respostas.

É chocante, por exemplo, que não se distingam os vários tempos desta tragédia, as várias vertentes da reacção à mesma. Porque desculpar a desastrosa reacção à catástrofe com o falhanço da política florestal é, quanto a mim, pouco sério. A política florestal é, sim, desastrosa, tem vários culpados, comete (muitos) erros e (poucos) acertos há décadas. Mas a capacidade de reacção a um desastre que se repete todos os anos, as paupérrimas condições de combate ao fogo, bem como as gritantes falhas de comunicação constituem outras vertentes do desastre anunciado, vertentes estas que têm de ser revistas, analisadas, que têm de acarretar consequências não só, mas também políticas. Neste quesito, estamos perante uma mudança de paradigma. A responsabilidade política está, agora, em coma. Não se sabe o que é que tem de acontecer para que alguém no Governo se demita, mas 63 mortes e a incapacidade de gerir crises, pelos vistos, não é suficiente.

Repito, não se trata aqui de uma caça às bruxas. Ninguém quis este resultado. Mas pessoas responsáveis, profissionais, com coluna vertebral e verdadeiras skills de liderança, assumem as responsabilidades e as falhas da equipa. O que implica, em certas ocasiões, aceitar elogios e créditos provenientes do esforço comum. Mas que implica, nos dias maus, assumir o erro e caminhar para a porta da rua.

Durante dias, deparámo-nos com aldeias isoladas, contagem de mortos galopante, feridos em parte incerta, entidades com discursos opostos. Para não falar do desastre do SIRESP, essa grande aposta deste governo num sistema de comunicações de ponta.

Tudo o que está relacionado com o SIRESP é tão surreal que a piada “mais valia terem feito um grupo de WhatsApp” teria graça se não fosse mórbida.

A recusa de ajuda face à disponibilidade de espanhóis, força aérea e exército fez cair a máscara do pseudo-controle da catástrofe. Quando se fala de excesso de voluntarismo deixa-se a descoberto a incapacidade de organização e articulação de quem está no terreno.

Lembrei-me muito de uma entrevista de Miguel Esteves Cardoso à RTP, em que este afirma que um certo tipo de português não pode ter o pequeno poder. Ora, no Governo e na função pública este tipo de português – encantado consigo, sobranceiro – está, infelizmente, em cargo de liderança. Assistimos, nos dias da tragédia, a um miserável desfile de queirozianos Dâmasos Salcedes, algo envergonhados, mas certos da pureza das suas instituições, ansiosos por sacudir água do capote e atirar areia para os olhos.

O Dâmaso-mor, esse, arranjou tempo para organizar um focus group (chic a valer!) que estudasse os melhores ângulos (dejá vu) que lhe permitissem sair incólume desta história. Porque nesta estrutura e neste país, o parecer é tudo: parecer eloquente, parecer social, parecer socialista, parecer líder. Num país de iletrados e de uma comunicação social que despacha pivots para noticiários nos escombros mas não faz follow up das situações, marchou o blockbuster dos governantes – coitadinhos – reunidos em contentores, com coletes berrantes que anunciavam uma luz no fundo do túnel, uma liderança no meio do caos.

E quando os jornalistas paravam, Dâmaso consultava o seu espelho, perdão, focus group, fascinado e agarrado ao poder da imagem. Os que se indignavam é que não estavam a respeitar o luto.

Dâmaso procurava desesperadamente chutar para canto a falha de comunicação que realmente importava, o erro do desinvestimento em aviões de combate ao fogo, a nega à força aérea, a cacofonia de gente perdida, desorganizada, que só sabia mandar parar o excesso de voluntarismo. A Ministra chorava, e estava no seu direito. Mas não é por ter chorado que passa a ter feito um bom trabalho. Dâmaso sabe-o. Dâmaso já havia conseguido transvestir um orçamento de direita em orçamento de esquerda. Já havia calado as forças de esquerda, agora convertidas em companheiras da coligação, merecerdoras de Óscar pela participação na cena good cop/bad cop, tão batida, mas tão apreciada pelo povo. Conseguiu, mais uma vez, ganhar tempo, ir de férias, atirar um inquérito aos descontentes, e, assim, não responder a pergunta nenhuma, obedecendo ao foco errado: o foco das massas, da sua imagem, do seu palanque.

Comecei por dizer que não era pessoal. Mas nunca disse que não era revoltante. “