da Polis: A Hipocrisia Política

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Cronista


A questão ultrapassa em muito o contexto da ausência de coerência, da ausência de consistência, da ausência de estratégia, do inusitado.

É mesmo pela óbvia estratégia predefinida, do propositado, do previsto e planeado, da falta de ética política, de uma demagogia retórica e pseudo ideológica, o completo abandono dos princípios programáticos.

Mais ainda… é brincar à política com os portugueses, nomeadamente com o voto do eleitorado (embora isso caiba ao próprio eleitorado avaliar).

A premissa é por demais conhecida desde o resultado eleitoral nos finais de 2015: não é uma questão de exercício da democracia parlamentar ou de concretizar contextos programáticos eleitorais.

Foi o recurso a uma estratégia parlamentar (mesmo que legítima) para impedir a concretização do exercício da governação a quem, apesar da minoria (e são vários os exemplos de governações minoritárias na história da democracia portuguesa), foi a principal escolha dos portugueses no processo eleitoral.

Só que o Bloco de Esquerda vendeu a “alma ao diabo”. Abandonou por completo o seu “adn político”, o seu princípio programático, a sua essência ideológica, só pela ânsia do poder e pela necessidade de sobrevivência política de uma esquerda parlamentar que apenas pelo confronto ideológico com PSD e CDS se mantém viva.

No entanto, a realidade tem demonstrado que os acordos parlamentares assinados têm menorizado o papel do Bloco de Esquerda e tem relegado o BE para segundos planos, aliás como comprovam as várias sondagens que vieram a público desde o início da legislatura (BE em queda), importando relembrar a afirmação de Marisa Matias numa entrevista ao jornal i em maio deste ano «é o PS quem mais tem “capitalizado” com a ‘geringonça»: 1. os dois Orçamentos do Estado aprovados com os votos favoráveis do BE apesar das afirmações de que não são os orçamentos do BE, nem são orçamentos de esquerda; 2. a posição do BE em relação aos casos das “licenciaturas”; 3. a relação do Governo e do PS com as instituições europeias; 4. a revisão do Código do Trabalho, as questões laborais e do emprego; 5. a descida da TSU contra a vontade bloquista; 6. os casos da banca com a CGD à cabeça; 7. as polémicas com as viagens da GALP; 8. o efeito falhado do chamado “imposto Mortágua”; 9. as cativações orçamentais; 10. a continuidade da austeridade apesar de “nova roupagem”; 11. os chumbos sucessivos às aprovações parlamentares dos Programas de Estabilidade; 12. as divergências com o PCP; 13. o desinvestimento do Governo no Estado Social; 14. as responsabilidades na tragédia de Pedrógão Grande e no assalto a Tancos; 15. e por último o processo da compra da TVI pela Altice e os prováveis despedimentos colectivos na PT; entre outros.

Pelo meio, ficam as “teatralidades políticas” com acusações e críticas demogogas, só para tapar o sol com a peneira, só pela retórica política.

O Bloco de Esquerda abandonou os seus princípios programáticos, cedeu claramente na sua ideologia, só para garantir o poder.

Por menos, por muito menos, o Bloco de Esquerda rasgaria vestes e sairia à rua com posições idênticas de governação da direita.

Por menos, por muito menos, há uns anos (em 2011) o Bloco de Esquerda fazia cair o Governo socialista de José Sócrates.

Agora, com claro medo do regresso do PSD à governação, a hipocrisia política fala mais alto que a ideologia e a defesa do seu eleitorado. No fim dos quatro anos de governação… virá a factura.