da Polis ” As transformações dos centros urbanos.”

Miguel Pedro Araújo

Bisturi Cronista 


Tem sido tema recorrente o debate em torno da reabilitação urbana nos centros e nos bairros históricos das cidades, com especial relevância para Lisboa e Porto pelas dimensões demográficas. A problemática prende-se com a descaracterização social e cultural que os chamados centros urbanos têm sofrido, nomeadamente pela explosão do número de edificado reabilitado para alojamento local ou arrendamento de curta duração.

Mas esta figura-me como uma “falsa” questão já que a realidade esconde uma outra verdade existencial: a da desertificação demográfica, económica, cultural e social dos centros urbanos e dos bairros tradicionais ou históricos.

E esta realidade não é só em Lisboa ou no Porto, estende-se ao país com a agravante do despovoamento do interior (por razões mais latas e abrangentes).

Permitam-me, por uma questão de proximidade e de exemplificação, tomar o exemplo de Aveiro (cidade de pequena/média dimensão) e das suas zonas urbanas históricas: Rua Direita, Bairro da Beira Mar, Alboi, principal avenida (Av. Dr. Lourenço Peixinho).

No início do ano de 2013, logo no primeiro mês, a Associação Comercial de Aveiro, lançava uma campanha intitulada “O centro de Aveiro vende?”. Nessa altura já a temática era longamente discutida e polemizada, sendo as suas fundamentações controversas.

Se os centros urbanos, como o caso, foram, durante décadas espaços comerciais (e de serviços) privilegiados, a realidade dos mercados alterou-se substancialmente com o aparecimento das grandes superfícies (e a deslocação de serviços) e o consequente encerramento de inúmeras lojas familiares e tradicionais que não conseguiram resistir à mercantilização do dia-a-dia e das necessidades dos cidadãos. Houve pois, no seguimento das avaliações feitas a essa realidade, um conjunto de iniciativas para tentar recuperar o comércio tradicional nesses centros urbanos. Não resultou. E não resultou não apenas pelo maior poderio comercial e financeiro das grandes superfícies (algumas até localizadas bem próximo desses centros urbanos, como o caso do Fórum Aveiro).

Não resultou porque simplesmente os centros urbanos e os bairros históricos se foram degradando e desertificando. O foco principal desta realidade são as pessoas. Sem pessoas os centros urbanos e os bairros não resistem. As pessoas abandonaram estes centros por distintas razões: os arrendamentos, a degradação do edificado e a ausência da sua recuperação, a falta de qualidade de vida (estacionamento, acessibilidade, serviços). E com isto se foi perdendo a identidade cultural e social dos centros urbanos e dos bairros históricos ou tradicionais, transformando-se em zonas “fantasma” (e em alguns casos “fantasmagóricas”).

Só antevejo uma forma de reabilitar essas zonas urbanas. Só com políticas governativas e legislativas que permitam uma reabilitação urbana que devolva as pessoas aos centros das cidades e aos bairros é possível renovar e fazer renascer essas zonas.

Não sendo através de medidas de promoção do regresso do comércio tradicional e de serviços a essas zonas urbanas, já comprovado que, isoladamente, não retoma a vida nesses centros, será através da fixação das pessoas, do retorno à convivência humana e ao enraizamento bairrista das pessoas que poderá haver recuperação da vitalidade nos centros e nos bairros.
Isto faz-se com reabilitação urbana, com recuperação do edificado mesmo com a vizinhança do alojamento local que tem sabido recuperar e dar nova vida aos bairros, com uma política mais eficaz e sustentável de arrendamento, com políticas urbanas de acessibilidades e mobilidade.
Uma zona urbana, um centro, um bairro histórico ou tradicional, com gente, com o regresso das pessoas, será uma zona com identidade, com história e “estórias” e aí sim, poderá de novo “vender”. Porque só com pessoas é que os espaços urbanos ganham e têm vida.

Só que não basta ficarmos pelas palavras. Foi assertivo o discurso do Primeiro-ministro, no final de 2016, na Póvoa do Varzim, perante uma plateia de jovens quando afirmou que «não há futuro para as nossas cidades se o centro dessas cidades não for reocupado pela vossa geração [jovens] que é a geração que tem de ter oportunidade para viver no centro da cidade que é onde podemos construir o futuro para todos nós». Indiscutível face à realidade do envelhecimento e desertificação dos centros urbanos. Mas falta muito mais… falta o mais difícil e que tem sido protelado anos após anos: passar do discurso à prática. Porque há um senão neste boom do alojamento local e dos benefícios que tem trazido para a reabilitação urbana das cidades: é que se assiste a uma excessiva alteração arquitectónica dos bairros onde a oferta se afigura já maior que a procura, criando uma incerteza quanto á sua sustentabilidade no futuro.

E corremos o risco de, sem as pessoas enraizadas e de novo a habitar e dar vida aos centros urbanos, qualquer dia voltarmos à desertificação e degradação dos espaços pelo seu novo abandono.

O que os centros urbanos e os bairros precisam é criar condições para que as pessoas regressem e que voltem a dar identidade e vida a essa zonas, mesmo com os turistas como vizinhos.