Depressão e Saúde Mental: vamos falar!

 

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Colunista


As epidemias silenciosas tendem a ser as mais mortais. Não as vemos, não as cheiramos, sabemos que existem, até que assombram as nossas vidas, através de um familiar, de um amigo ou de nós próprios.

Falar de doença mental ainda é um tema tabu na nossa sociedade e foi por essa razão que a temática abordada para o Dia Mundial da Saúde de 2017 pela Organizacao Mundial da Saúde é a Depressão com o slogan ” Depression, lets talk!!”

Automaticamente revestimos a doença mental de preconceito e catalogamo-la como sendo um estado de loucura. O próprio termo ‘doença mental’ foi criado com uma intenção humanista para se evitar o preconceito da loucura. Mas nós todos sabemos que o nosso preconceito está errado.

Quando pensamos em Robin Williams, ou em Philip Seymour Hoffman, ou em tantos outros artistas que admiramos e cuja morte por suicídio entra nas nossas casas, não pensamos em loucura ou em loucos.
Pelo contrário, viajamos para um sentimento de dor insuportável, tentando racionalmente justificar o suicídio. Assim, entrou o conceito de depressão nas nossas casas, de forma violenta.
Em cada três casos de suicídio, dois devem-se a um estado de depressão profunda.
E para pensarmos tudo isto, devemos perceber algo fundamental: a doença mental é um ponto de chegada, jamais um ponto de partida.

É por esta razão que o maior investimento em saúde mental é a prevenção: este é o verdadeiro investimento de vida.

Devemos pensar a saúde mental desde o nascimento, na educação e no acompanhamento dos nossos filhos.

Hoje, é muito comum ouvirmos dizer: «O meu filho é hiperactivo e tem muita dificuldade em concentrar-se». Aliás, em muitos casos, são os próprios educadores a alarmar os pais. Na última década, a incidência de crianças em tratamento para o transtorno do défice de atenção com hiperactividade aumentou significativamente.

Não podemos ignorar esta situação. Serão realmente todas estas crianças hiperactivas? O que mudou na sociedade? O stresse em que vivemos submersos? O tempo que dedicamos aos nossos filhos? Os educadores? A culpabilização em darmos uma palmadinha quando necessária? O nosso conceito de disciplina?

Dos filhos para os adultos, Portugal duplicou na última década o número de suicídios: por ano, a epidemia da mente mata silenciosamente 2000 pessoas. Portugal tem, a par da Irlanda do Norte, a mais elevada taxa de doenças psiquiátricas na Europa.

Não podemos, pois, ignorar esta ‘epidemia’ que afecta 700 milhões de pessoas no mundo, representando já um terço dos casos de doenças não transmissíveis. Perante esta emergência mundial, a OMS aprovou um plano de acção para a Saúde Mental 2013-20. E não se trata apenas de uma estratégia de poupança no tratamento dos pacientes e nas baixas por doença, mas também da necessidade de promover uma população feliz, mais produtiva e no usufruto da magnitude das suas competências cognitivas e emocionais.

Segundo o mais recente relatório da OCDE, um quinto das pessoas que trabalham sofre de uma doença mental. E a taxa de desemprego nos doentes graves pode ser 4 ou 5 vezes superior à dos trabalhadores saudáveis.

Neste caminho preventivo, o papel do médico de família é essencial: é a porta de entrada no sistema de saúde e, muitas vezes, o único a que os pacientes têm acesso.
Nomes como Hemingway, Virginia Woolf, Tchaikovsky, Robin Williams, David, Ana, Francisca, Jorge, Teresa, Duarte contam-nos como a doença mental mata silenciosamente.
Não a podemos ignorar.

Nem nos devemos envergonhar quando não nos sentimos no gozo pleno da nossa saúde mental. Devemos, sim, procurar ajuda e recordar que «um dia, quando olharmos para trás, veremos que os dias mais bonitos foram aqueles em que lutámos»