Doa-se vaidade a retalho!

Doa-se vaidade a retalho!
Caro leitor(a),

A parasita de que hoje lhe falo, surge em idade precoce, no bebé estando bastante pronunciada na criança que naturalmente gosta de se sentir o centro das atenções do seu entorno. Uma vez na adolescência, a besta reproduz-se em larga escala, sobretudo hoje, na “nova era” que o mundo moderno vive. Vivemos mergulhados numa crise que ultrapassa amplamente a esfera monetária.

A verdadeira crise que vivemos é uma crise de valores cujo foco individual é a exaltação da imagem e a constante competição com o próximo.

Para cúmulo as redes sociais tornaram-se o regozijo da besta.

Nestas redes, muitas são as pessoas que buscam criar uma imagem à imagem da besta. Em suma, o apogeu da exaltação da vaidade individual tradutora de traços dissociativos na personalidade de tantas pessoas.

Assumo que o Facebook nos dá uma oportunidade única de informação noticiosa bastante profícua quer por jornais, revistas etc…

Mas o mais chocante de tudo isto, para além do impacto comprovado por inúmeros estudos actuais psiquiátricos sobre a utilização das redes sociais na vida das pessoas, é o quanto o homem se rebaixa sobre a sua própria existência permitindo à besta uma total apoderação da sua vida individual.

Quantos indivíduos distribuem dezenas de “likes” por dia mas são incapazes de abraçar nesse mesmo dia as pessoas que convivem consigo no seu entorno?

Quantos tecem juízos de valor àqueles cuja lista de amigos nas redes sociais é menor de 200 pessoas, como se este indivíduo fosse uma “ave rara” ou anti-social?

Quantos expõem a sua profissão, o seu local de trabalho, os mil e um interesses e as mil e uma posições que ocupam na sua vida profissional?

Quantos julgam os que não a expõe, como se fossem pessoas sem sucesso ou sem ocupação?

Quantos de nós deixamos de contar a nossa história a alguém novo que conhecemos na nossa esfera não virtual? O que fazemos, porque escolhemos x profissão etc.

Quantos de nós renega às peripécias do destino, um dia passado cinco, dez anos ou até nunca a existência de amigos em comum entre amigos?

Quantos de nós perdemos porque queremos a oportunidade de contar aos outros a nossa história?

Quantos de nós vivemos de afectos, e não de ” likes “?

Quantos de nós julgamos a sociabilidade dos outros por aquilo que vamos vendo na rede? E quem não tem uma conta nas redes sociais? Será “doente” ou mais saudável que todos nós?

Se é possível uma vida real e uma utilização profícua das redes sociais?

– É. No entanto temos de nos despir da besta.

Mas a besta não vive apenas do virtual.

A besta vive da nossa pele. Vive da falta de humanização dos tempos que vivemos. A besta vive em todo o lado. No trabalho, no nosso núcleo de amigos, na nossa pele e até onde menos seria esperado encontrá-la : em instituições de cariz humanitário.

É muito fácil dentro destas instituições encontrar a besta hiperdesenvolvida nalgumas pessoas que fazem de ditas instituições um palco de vaidades, esquecendo o foco e o objectivo para que trabalham em ditas instituições.

Esquecendo o respeito por todos aqueles que equitativamente dão de si em prol da comunidade e dos outros.

Lutemos contra a besta, todos os dias, da nossa pele, à transpiração contagiosa da pele dos outros.

Saibamos ser humanização em acção.

Saibamos doar a vaidade a retalho directamente para o esgoto do esquecimento ou virtualmente, como um destes dias me dizia uma amiga: – saibamos transformar a besta em Spam.