Construir um “amor” por cima de outro!

 Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora

Desde que li uma crónica do Marco Gil, que é um contador único de histórias,  sobre o amor e a separação fiz-nos viajar por este tema nos últimos meses abordando as relações amorosas nos tempos modernos e antigos.

Também aproveitei o dia de São Valentim para sensibilizar para a violência no namoro e para a violência doméstica cujos números têm aumentado na sociedade portuguesa e são preocupantes no seio das novas gerações.

Hoje vou escrever o último artigo de esta série partilhando também eu uma história como a que o Marco conhecia e partilhou na sua crónica para exemplificar distintos pontos de vista.

O Marco trouxe até nós a história do João e da Maria:
“O João conheceu a Maria já no final da relação com a Rita. O amor conheceu um rumo novo e o presente também. A Rita já o perdoou, mesmo que o caminho do coração seja sempre o certo. Ainda assim, ontem, quando se voltaram a ver no jantar de anos de um amigo em comum que fora feito durante a relação, parecia que nunca se tinham visto na vida. Se fossem apresentados novamente não pareceria assim tão mal. Nem um aceno, nem um “Olá”, nem coisa nenhuma. São, de repente, estranhos.”
Concluiu a sua crónica com uma frase que me marcou a mim e a milhares de leitores o que de certeza contribuiu para a vitalidade da sua crónica nos media e redes sociais:
” Nunca se arruma na indiferença uma história que teve tempos felizes. Assim como o magenta nunca será a mistura do azul com o amarelo, um cúmplice nunca poderá passar a estranho.”

Já eu,  trouxe até nós através da crónica “na perda ativaram o tinder e a solidão” várias histórias de amor que conheci de pessoas em distintas faixas etárias.

A história do Joel e da Sara sobre a qual vou mergulhar hoje insere-se bem dentro da Geração Y, os chamados Millennials.

A Sara não foi capaz de perdoar o Joel, não foi capaz de entender os seus erros, nem foi capaz de querer lidar com o sofrimento que faz parte da vida e dos seus desafios.

O Joel nunca a traiu como seria comum pensarmos ao falarmos em erros, ou pelo menos é o exercício mental que cada um de nós faz perante uma situação que termina de forma abrupta sem diálogo.

A realidade é que por mais que nem sempre nos apeteça aceitar vivemos para chorar, amar, sofrer, partilhar, cair, levantar,errar, acertar, de outra forma a vida não seria vida.

A Sara guardou a dor para si no peito não querendo ouvir nem despedir-se do Joel.
Fez questão de lhe transmitir um imenso ódio e indiferença como se não estivesse na realidade a sofrer por dentro e o amor fosse coisa do passado.
E foi assim que pelos caminhos da insegurança e da solidão procurou num espaço surpreendente e extremamente curto após a sua separação uma nova vida no Tinder encontrando fácilmente algum tempo depois o ombro amigo que se figurou aparentemente perfeito.

Aquela pessoa parecia preencher todas as suas expectativas e facilmente se envolveu no seu núcleo de amigos.

A Sara acabou por lidar com o sofrimento da mesma forma que milhares de jovens lidam hoje em dia no seio da Geração Y.
Na ausência de saberem e quererem lidar com o sofrimento porque a sociedade estimula-nos para o imediato, para vivermos sem medida como se alguma coisa fosse acabar, acendem as antenas tinder em busca da felicidade que preencha os seus sonhos e as suas expectativas e a verdade é como já dizia Saramago nas suas sábias palavras: ” A felicidade é ou não é. Vão-te dizer que se conquista. Não acredites… “.
O discurso do pai da personagem principal no filme ” call me by your name” faz uma brilhante reflexão sobre a fuga ao sofrimento quando sentimos que estamos de facto a sentir algo avassalador por alguém no campo sentimental.
Para sentir, é preciso sofrer, de outra  forma nunca vamos sentir algo real, nem saberemos amar.

O amor tal como a vida implicam sofrimento.

Os lutos têm que ser vividos por nós próprios, não é algo que alguém possa fazer por nós ou que possamos fazer em cima do ombro de outro pessoa ainda por cima com expectativas amorosas/afectivas por nós.

Naturalmente que todos devemos procurar a nossa rede de apoio seja ela qual for familiares, amigos ou até nalguns casos recorrer à psicoterapia.

 O Joel já perdoou a Sara, o altruísmo do seu amor tem-se mostrado mais forte do que tudo o resto.

Tem confessado aos que lhe são próximos que o seu único desejo é que a Sara seja feliz.

No entanto terminou por perdoar-se pelos erros que cometeu e vive o luto da relação com um sorriso no rosto, sabendo que o sofrimento de hoje é necessário para a edificação sólida do seu amanhã emocional.

Mas a Sara por sua vez está a construir castelos de areia com o Jorge.

O Jorge é o ombro amigo que conheceu no tinder e que fez questão de a recordar dia sim dia sim, que o amor que viveu não foi real, que ninguém ama como nos filmes, e que isso do amor e das almas gémeas são fenómenos que se repetem na vida sempre que desejamos senão estávamos todos com um problema.

E é certo que estamos todos com um problema…

Porque milhares de pessoas no mundo todo nunca vão ter a sorte de encontrar o amor das suas vidas, vivendo relações de companheirismo que um dia vão ter no espelho apenas a memória do período de paixão fugaz e daqueles longos 10 dias em que é impossível descolar da outra pessoa.
Já os filmes raramente pensamos nisso mas muitas das vezes são realizados com base em histórias verídicas até as histórias mais melosas e algo dramáticas como ” as palavras que nunca te direi”…
Este ombro amigo convenceu a Sara que tudo o que partilhava em relação à sua anterior relação, consigo poderia ser bem melhor. Um exercício humano e natural quando desejamos obter alguma coisa…

No fundo partilhou a concepção e o inception que os Millenialls têm sobre este tema com a sua imaturidade emocional.

Acreditam que os sentimentos mudam à velocidade da luz de um mês para o outro. E se os sentimentos mudam e nós mudamos porque não haveria de mudar o Amor?

Porque o Amor verdadeiro não se modifica com o tempo. No entanto os sentimentos ganham formas distintas à medida que crescemos e evoluímos e são essas formas que vão vestindo a pele do Amor.

Mas a sua essência não muda, como o Amor incondicional de uma mãe por um filho por mais erros que este cometa e por mais que este mude com o passar dos anos…

A pessoa que rouba o nosso coração tem este mesmo efeito em nós mostrando-se o amor incondicional e altruísta. É algo que vive dentro de nós, algo que nos tira a respiração e não conseguimos arrancar do peito mesmo que às vezes as desilusões da vida nos faça desejar isso.

É por isto que o Amor das nossas vidas é eterno e permanece até ao último dia…

O Jorge desvalorizou também o facto do Joel ter sido capaz de resolver os traumas que a vida tinha dado à Sara.
Esses traumas tinham como a solução/tratamento a psicoterapia ou um amor verdadeiro. Isto segundo o que certo dia um Psiquiatra disse à Sara.
E foi o que aconteceu graças ao amor do Joel pela Sara que pacientemente conseguiu “curar” a vida da Sara.
A Sara hoje é outra pessoa, mais forte,mais segura de si, e que tem a capacidade de partilhar e usufruir da intimidade com outras pessoas.

É um grande erro para ambas as partes do casal construir uma paixão apoiando tudo o que envolve a construção deste processo no que falhou na relação pela qual uma das pessoas está de luto.

Uma das primeiras coisas que aprendi sobre relações foi a ter muito cuidado quando me refiro ao ex-namorado(a) seja de quem for, inclusivamente com amigos(as).

Procurar destruir a imagem da outra pessoa é um péssimo caminho…
Não conhecemos a pessoa em questão muitas das vezes, nem fomos nós que vivemos a relação, não conhecemos todos os dados, no fundo não temos como fazer julgamentos assertivos semeando apenas sementes negras e ódio na pessoa que desejamos e que só devemos querer ver bem ou no nosso amigo(a).
Não desejamos que a nossa pessoa querida sinta sentimentos como o ódio pouco realista que aos poucos é destrutivo e faz com que a pessoa tenha menos o que oferecer de cada vez que conheça alguém novo com o qual se pode relacionar.
É também muito fácil o ombro amigo manipular a pessoa que está em sofrimento, muitas vezes esta atitude até pode ser inconsciente. Mas a verdade é que muitas vezes não o é…

Já o Jorge corre o risco de se sentir vazio no dia em que perceber que aquilo que construiu é apenas o reflexo do amor da Sara pelo Joel no espelho, que foi distorcido e em última instância projectado numa ansiedade de fuga pelo sofrimento e pelo fatalismo da ânsia pela busca da felicidade imediata.

Corre aliás o risco de se aperceber que está a viver os sonhos e os caminhos de vida que foram traçados por outras duas vidas.

O Jorge nunca conheceu a Sara de raiz, conheceu uma Sara assustada e insegura, dominando assim todas as suas emoções. Perdeu a oportunidade única naquela época em que estava livre na solidão do tinder e da vida de começar uma paixão com uma pessoa livre de dor e de Amor.

Porque não é possível encontrar o Amor numa casa onde ele já bateu à porta e ainda vive, numa alma que já se complementou com outra, por mais que essa alma possa ser parecida com a nossa, tenha inclusive gostos semelhantes, e pareça ser num retrato imediato sem mergulharmos na sua essência tudo o que sempre desejamos, a verdade é que duas metades complementam-se, não se plagiam…

E muito menos existe “amor” através da tentativa de destruição de outro Amor …
Não se pode construir o “amor” em cima de outro Amor.

A verdade é que nem o Tinder é capaz de um milagre desses…

Infelizmente somar amores num espaço curto de meses ou se preferirmos saltar de relação em relação é um fenómeno comum no tempo que vivemos e começa a não afectar apenas a Geração Y.

Usualmente não gosto de frases feitas mas há uma que fecha na perfeição este ciclo de crónicas: “o Amor não se escolhe.”

Não cai das árvores mensalmente ou anualmente,  nem depende do nosso livre arbítrio, das nossas vontades, das nossas mudanças, dos nossos desejos e das nossas ânsias.

Entendo que isto seja difícil de ler,é uma ideia fatalista, pessimista e até maldosa na medida em que refere que ele não surgirá em todas as vidas nem se repete mas também é difícil aceitar que a vida compreende sofrimento e não apenas alegrias e que esta dicotomia é o que dá sentido a todas as vidas…