Escola Portuguesa- campo de concentração do século XXI

Gonçalo Melo de Magalhães

Bisturi Cronista


Hoje, neste dia perfeito que é o dia 17 de Março (dia do meu aniversário), li uma entrevista muito intrigante a José Pacheco, mestre em educação de crianças, sobre o nosso modelo de ensino em Portugal e isso deixou-me em profunda meditação.

Já tive, ou na realidade quis ter essa discussão com muitas pessoas e decidi contar a minha história na primeira pessoa para o próprio leitor refletir.

Desde que fui para um infantário, (meu deus, já tenho 21 anos…) intrigava-me com tantas coisas.

Imaginem uma criança com 6 anos que já mexe num computador, sabe usar um telemóvel, sabe muitas mais coisas sobre tecnologia do que a maioria dos adultos em Portugal, com uma imaginação inacreditável, com uma curiosidade inimaginável…

Pedimos a estas crianças para estarem sentadas numa aula, pedimos para estarem com um professor que pede tarefas como cópias ou para fazerem cálculos durante 6 horas com curtos intervalos 30 minutos, bem como para aprenderem a memorizar.

A avaliação das mesmas passa por infindáveis testes.

Considero isto inaceitável!!!

Para quê tudo isto quando se tem internet? Quando se tem diversos parques para se usufruir? Quando se pode tocar nas coisas em vez de falar sobre elas? Para quê tudo isto se os países mais desenvolvidos do mundo jamais teriam um sistema de ensino como este? 

E sempre tentei me defender, sempre estudei por mim mesmo, li o que sempre me apeteceu, acreditei no que só a minha cabeça pensa e descobre.

Mas a maior parte das pessoas não é informada quanto ao sistema de ensino e sobre outras possibilidades de conhecimento.

Os portugueses preferem deixar estar do que mudar alguma coisa e ainda para mais não procuram informar-se. 

Qual não é o meu espanto com os meus colegas quando se aproximou o período de decisão universitária. A maioria quer tirar cursos só para obter um diploma académico.

Não querem verdadeiramente aprender, é muito aterrorizador.  Mete-me mesmo raiva a acefalia portuguesa: “Já entraste na faculdade?”, “Porque não foste para a FEP?” “Essa universidade é boa! “, ” Essa é má!”, “Temos de tirar boas notas para passar?”, “Já não me lembro de nada do que escrevi ontem no teste.”

Nunca foi meu objetivo tirar nenhum curso porque nunca me despertou interesse e muito menos em Portugal.  Por conseguinte, quando chegou a altura de poder escolher aonde quero ir, quero ir para um sítio diferente, onde posso dizer o que penso, onde posso ter um ambiente onde majestosamente se aprende. Então, preferi ir para a Holanda.

Porquê a Holanda?

– Primeiro, porque existe espírito crítico, posso dizer tudo o que quiser, porque aqui as pessoas querem saber mais, não só acerca duma coisa mas de tudo, seja astronomia, literatura, cozinha, business, culturas diferentes…

Nada na Holanda é considerado não criticável, aqui não há asneiras, aqui não há valores sólidos, faz parte da maneira de pensar calvinista – aqui as pessoas pensam em tudo.

Segundo, existe prosperidade económica, aqui vê-se dinheiro e sente-se dinheiro e recebesse dinheiro. Terceiro – toda a gente fala em inglês. Mas eu escolhi o Reino dos Países Baixos principalmente pelo sistema de ensino.

Como é o sistema de ensino da minha universidade?

– Não existem testes, ao invés a avaliação faz-se por trabalhos. Tudo o que fazemos em termos de trabalhos, são exemplos concretos de empresas concretas, autênticos case study. Não existem horários sólidos. Tudo é questionável e admissível desde que explicável.

Temos disciplinas obrigatórias sobre tudo: cozinha, fotografia, sobre ajuda comunitária, sobre ajudar pessoas, sobre poupar dinheiro, sobre a Rússia, sobre a China, sobre tudo.  As aulas não são em modelos tradicionalistas e conservadores como em Portugal.

Nada é feito com livros nem testes. A memória não é valorizada mas sim a forma de resolver problemas. Toda a opinião conta. Qualquer opinião que se tenha, é vélida desde que justificada.

O meu sistema de ensino é internacional. Nós somos 70 alunos e diria que somos de 50 nacionalidades diferentes. Ninguém falta às aulas. Todas elas são leccionadas em inglês.

Tudo é prático. Não existem doutores, só os de medicina…

Não estou aqui para valorizar a Holanda mas sim a dizer o quanto nós, Portugal, somos atrasados e desinformados podemos mudar isso.

Há campos de concentração muito menos violentos do que as nossas escolas portuguesas.

As escolas proíbem, castram, fazem com que se obedeça a quem não tem legitimidade para isso. Para quê? Temos de cultivar, mostrar que somos o que quisermos, basta, termos conhecimento e ambição para isso. Tudo é possível e só depende de nos. 

O sistema de ensino é essencial para as gerações futuras. O desorganizado, o que valoriza pouco a memória, o que é rebelde, o que odeia fazer tudo o que os professores querem, o que é open-mind e sabe que as coisas não têm só uma maneira de pensar, também têm lugar no ensino, também são excelentes alunos.

Eu conheci muito poucas pessoas verdadeiramente inteligentes que tirassem boas notas. Normalmente é o contrário em Portugal.

Temos de mudar radicalmente o sistema de ensino que temos em Portugal e a nossa forma de pensar em termos de educação.

É importantíssima esta questão nos dias de hoje.