Opinião no Jornal Audiência | Esse bicho chamado amor!

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora 


nos dizia Luís Vaz de Camões « Amor é fogo que arde sem se ver». É a melhor descrição que conheço para todas as formas que o Amor veste.

Crescemos no útero, não sabendo para onde vamos, mas sabendo sempre com quem estamos. Estamos protegidos, confortáveis, quentes, felizes, dentro da nossa mãe, um corpo que ainda não reconhecemos como sendo carne e osso, ou se preferir como corpo.

Depois deste primeiro e eterno amor, a verdade é que nem todos estamos destinados a esbarrar com outros amores, flutuando de paixão em paixão, como um barco que deriva porque não sabe para onde ir.
Recordo um dia em conversa alguém dizer-me que nesta vida encontraremos dois amores: o amor da nossa vida e o amor para a nossa vida.

Apesar de desde aí já ter ouvido esta expressão várias vezes, não concordo com a mesma.

Viver o Amor da nossa vida, para a nossa vida, é uma escolha.

É certo que esta escolha envolve um longo caminho de pedras ( anos a fio ) para percorrer. Em muitos casos isto não acontece, porque os trilhos deste bicho chamado amor percorrem-se a dois. A somar a estes trilhos junta-se a complicada equação da vida e das suas barreiras tão difíceis.

E por fim entra o acerto químico da equação, que sem ele sabemos que a equação não funciona: o encaixe e as cedências nos egos e nas personalidades, naturalmente distintas.

É assim uma fórmula simples no entanto é uma fórmula para uma vida inteira, com constantes acertos, quer nos reagentes, os obstáculos da vida, como em nós mesmos.
Outro dia alguém contava-me a medo que quando se deitava imaginava uma vida na sua cabeça aquilo a que chamamos “daydreaming”.

Achei curioso. Defino este daydreaming como a fase que antecede o Amor.
Quando sonhamos, tornamos-nos mais despertos para o mundo, sabemos colocar invisivelmente o nosso outrora barco à deriva no rumo certo…

Quando penso em Amor termino sempre onde eu própria comecei, ou melhor a minha mãe: nos meus avós!
O Amor dos meus avós resultava de uma fórmula complicada: uma mulher à frente do seu tempo, líder natural, e um homem também criativo mas conservador.

O Amor da avó soube colmatar tudo o resto no avô. Amaram-se até aos seus últimos dias.

Recordo o último dia que vi o meu avô. Falou-me dela como sempre, e como sempre os seus olhos azuis turquesa enchiam-se de raios de sol. Jamais esquecerei aquele olhar, imediato como a pupila que dilata…

E quem fala do avô e da avó fala da Maria Antónia e do Fernando, que vi celebrarem os 95 anos de idade, e desaparecerem corporeamente um atrás do outro em dois dias consecutivos, mostrando-nos que o Síndrome do Coração Partido é uma realidade.

Partiram os corações seguramente para os entrelaçar na eternidade…
Isto tudo para dizer que o Amor da nossa vida é o Amor para a nossa vida!!

Nunca desistam…


Artigo publicado no Jornal Audiência:  http://audiencia.pt/esse-bicho-chamado-amor/