Mare Nostrum

“A viagem é uma sucessão de irreparáveis desaparições”.

A operação Mare Nostrum (OMN) foi estabelecida pelo governo Italiano, a 18 de Outubro de 2013, após dois naufrágios que haviam vitimado 400 pessoas perto da ilha italiana de Lampedusa. Consistiu num alargado sistema de patrulhamento com vista ao socorro às embarcações ilegais que atravessavam o Mediterrâneo.

Esta operação permitiu resgastar mais de 150 mil imigrantes ilegais, tendo sido gastos 114 milhões de euros.

Em Novembro de 2014, o governo italiano suspende esta operação, alegando que a decisão tinha como principal objectivo desestimular as tentativas de travessia sob o argumento que a redução no socorro demoveria a imigração ilegal e os traficantes de pessoas que fazem desta travessia um negócio amplamente lucrativo.

Na realidade, a operação Mare Nostrum desapareceu devido às pressões internas do povo de um país abalado pela crise económica e pelo desemprego. Outro factor crucial neste desaparecimento foi a indisponibilidade e irresponsabilidade revelada pelos Estados Membros da União Europeia numa problemática que é de todos. Afinal, o nome atribuído pelos Romanos ao Mar Mediterrâneo significa o nosso mar.

Ao invés, a solução encontrada pela Frontex, agência de fronteiras da União Europeia, foi a criação da operação Triton, cujo orçamento é bastante parco em relação ao da Mare Nostrum, o que significa menos embarcações, recursos humanos e um alcance bastante limitado a 30 milhas náuticas da costa Italiana, cerca de 55km.

O naufrágio de Sábado passado ocorreu a 200 km da ilha de Lampedusa, vitimando entre 700 a 950 pessoas.

Com esta tragédia, 3500 pessoas terão perdido a vida no Mediterrâneo nos primeiros meses de 2015.

O que motiva estas pessoas?

Aquilo que nos motiva a todos. O nosso PIPS (produto interno para sonhar).

O mesmo PIPS que todos os anos vitimiza aqueles que enfrentam o deserto para tentar entrar nos Estados Unidos.

Um PIPS que nos faz deixar o pouco que temos pela busca de uma vida melhor, mais digna, que permita sonhar com a ausência de fome, miséria, guerra…

É isto que motiva estas gentes do Norte de África, vindas geralmente da Líbia e do Lémen.

A nossa ampulheta Ocidental não pode continuamente ignorar um mundo que também é o seu. Um mundo onde prolifera o terrorismo, a fome e o desumanismo.

A Europa e a ONU necessitam actuar urgentemente perante esta crise humanitária que já ultrapassou amplamente toda e qualquer questão geopolítica, geoestratégica ou religiosa.

São necessárias medidas urgentes de apoio financeiro à Itália, Grécia e Malta, alargar as missões de busca e salvamento estabelecidas pela Frontex.

É necessário, no fundo, recuperar aquilo que foi a operação Mare Nostrum, mas desta vez entender que a responsabilidade por este nosso mar é de todos.