Mudam-se as horas, mudam-se as vontades

Marco Gil

Bisturi Cronista – O Bisturi das Emoções


Tinham encontro marcado para o dia seguinte, à beira do rio, onde partem e chegam sonhos.

É o primeiro encontro de ambos, foi no Tinder que aquilo se resolveu. Marcaram para as 14 horas, ele chegou antes dela e esperou quase uma hora, achou que ela não apareceria e foi-se embora 3 minutos antes dela chegar pontualmente.

Ele esqueceu-se, mas ela atrasou o relógio. A mudança das horas deu-lhes cabo de um amor que estava para começar.

Já passou uma semana e ainda não me dou com a mudança de horário, nem eu nem ninguém. Isto de serem 17 horas quando há poucos meses seriam 21h e qualquer coisa é algo que me reduz o tempo, leva-me a alegria e deixa-me em baixo por cada vez que olho para o relógio e não são 23h mas são 18h e pouco.

Gosto tanto de saber que são 6 da tarde e ainda tenho tanto para fazer e pensar naqueles dias em que às 17h ainda é cedo.

“Está calor, e se ficasse para depois das 18?”; nunca damos nada por decisões destas, mas são elas que nos dão conta de que os dias são maiores e mais bonitos.

Mudam-se as horas e mudam-se as vontades. E mudam todas para pior.
A Inês saiu do trabalho às 17h30, foi pedir a ementa para jantar 10 minutos depois, a minha Avó também já põe a mesa a essa hora e os serões são tão grandes que antes da meia noite já estamos a chegar a casa se formos fazer “noitada” e os after´s passaram para as 3.

Até os cães ficam baralhados com as horas e as crianças acham estranho que os Pais cheguem tão tarde à escola, mesmo que ainda seja cedo.
A mudança de horário não encurta apenas os dias, ela entristece as pessoas sobretudo as que são adictas aos óculos de sol. A luz é fundamental, nem que seja para franzirmos os olhos.

E aqueles dias que começam como todos os outros, mas que se aproveita a praia até ás 18h para se aproveitar a esplanada ás 19h e ainda ser bem cedo dali a 3 horas, quando se pergunta onde se vai jantar?

Os dias maiores trazem coisas maiores, a luz acrescenta-nos na hora de não nos roubar nada a não ser o coração que se lhe arrebata por cada raio.
Gosto dos serões com as lareiras acesas, uma manta e um filme mas não há qualquer necessidade de fazer tudo às 17h porque já está escuro lá fora.

A mudança de horário baralha-nos, deixa-nos entregues a um dia cada vez mais perto do fim e nunca temos tempo para nada porque: “Despacha-te que daqui a 10 minutos é de noite”, muda-nos os hábitos e obriga-nos a outras rotinas que são feitas por obrigação.
Nunca encontro beneficios para esta troca, nem que seja por que se gasta mais electricidade. Até as flores precisam do sol para crescer e um pôr do sol às 5h da tarde faz tanto sentido como comer o almoço às 9h da manhã.

A luz natural não se gasta, chega em forma de raios e dá-nos a vitamina que não vem nas embalagens. E as caminhadas, o passeio com o cão e copo que bebemos com os amigos depois do trabalho?…podiamos deixar sempre isso para de dia.

Escrevo estas palavras perto do meio dia, mas podiam já ser 13h, resta-me assim o consolo de que faltam 135 dias para os relógios voltarem a estar certos.