Não! Os “Millennials” NÃO optam por casas mais pequenas!

 

Nuno Novo Ramos

Bisturi Cronista 


Queria falar de assuntos mais sérios, dos (curiosos) números do desemprego, da crise da Venezuela, ou até da tensão entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos.

Contudo, já há algum tempo que quero escrever sobre esta minha (nossa) geração: Os “Millennials”!

Coincidência ou não, esta semana, li um artigo no Jornal Expresso, cujo título era, “Millennials optam por casas mais pequenas”. Engraçado. Que geração magnífica é a minha, a geração que vai dos 18 aos 33 (aproximadamente), que somos apelidados de “extremamente sociais” e de “desprendidos em relação à propriedade e aos bens materiais” mas que ao mesmo tempo, é constantemente acusada de sermos difíceis de controlar, narcisistas, preguiçosos, confusos, indisciplinados, impacientes, viciados na tecnologia, e todo um role de adjectivos que não são propriamente os melhores. Que estamos habituados a colocar um filtro nas situações da vida, como se de uma fotografia de “Instagram” se tratasse!

Não me cabe a mim julgar uma geração, muito menos a minha, e se aceito que alguns desses adjectivos encaixam de facto nesta fatia geracional, não posso aceitar outras coisas!

Os “Millennials” não optam por casas pequenas, meus caros. Não! É errado assumir isso! Nós somos a geração com maior nível de educação e formação (escolar diga-se) de sempre. Acham que estamos a estudar até aos 30, para morar dentro de um T1 na amadora (sem desprimor), com rendas de T4 no Saldanha?

No artigo em questão, e cito, vem a seguinte frase, “São criativos, empreendedores e cidadãos do mundo, encarando com facilidade a hipótese de trabalhar em qualquer parte do mundo, assim tenham uma oportunidade que satisfaça a suas expectativas. São também mais racionais nas decisões de compra.”

Pudera! O que seria se não tivéssemos de encarar a possibilidade de trabalhar em qualquer lado, quando no mercado de trabalho somos todos descartáveis?! Se grande fatia desta geração salta de estágio em estágio, sem contrato de trabalho, queriam que fossemos impulsivos? Não! Não nos podemos dar a “esse luxo”.

Acham que não queremos comprar casa? Ter algo nosso! Queremos, mas não nos é permitido! Não temos rendimentos, nem condições para isso!

Sim, somos uma geração evoluída, mas as nossas pretensões são iguais a todas as outras gerações anteriores. Nós também queremos casa, carros, casar, ter filhos, férias fora. Mas ao contrário das gerações anteriores, o mercado de trabalho, os baixos salários, a precariedade, e todas as outras dificuldades inerentes aos “trintas” não o permitem.

E cada vez mais somos obrigados a adiar cada um desses sonhos, e a focar-nos cada vez mais numa carreira (sempre frágil) para obter um rendimento digno.

Por isso, e em jeito de conclusão, digo, discordando da autora do referido artigo, nós não queremos casas pequenas! Nós crescemos a ver FRIENDS, a ver HIMYM, nós queremos casas cheias, queremos ter amigos por casa, também queremos casas grandes, queremos receber os nossos amigos em casa a cada sexta-feira, beber uma imperial, depois de um dia cheio no escritório a aturar aquele chefe que teima em não nos promover, mas por outro lado aumenta as nossas responsabilidades, e que nos congratula com uma “palmadinha nas costas”.

O único problema é que esse trabalho é mal pago, esse trabalho se calhar nem passa de um estágio, esse trabalho pode até ser sem contrato, esse trabalho não chega para mais que uma pequena casa, ou um pequeno quarto!

Não por opção, mas por obrigação!