O Brexit nasceu!

Ana Regina Ramos

Bisturi Cronista


Sabiam que Portugal é campeão europeu em divórcios? É o que diz um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, publicado em outubro do ano passado. Pelos vistos, em cada 100 casamentos, 70 acabam em divórcio…

Apesar disto, não é em Portugal que se vai dar o grande divórcio histórico… É um bocadinho mais acima, por terras da rainha Isabel II.
Passaram-se nove meses e o bebé nasceu, chama-se Brexit.

Foi a 23 de junho que mais de 17 milhões de britânicos votaram a favor de pôr fim a 43 anos de integração na União Europeia.

O resultado do referendo abalou as Bolsas, desvalorizou o dólar e fez com que este recém-nascido ficasse sem pai.

Um dia depois do referendo, o primeiro-ministro conservador, David Cameron, que convocou o referendo e liderou a campanha a favor da permanência na UE, apresentou a sua demissão.
David Cameron “andou a brincar” e depois não acreditou que houvesse mesmo uma gravidez, até ao dia dos resultados do referendo, que, com certeza, não o alegraram e fizeram com que ele abandonasse o seu “filho”, ainda na barriga da mãe.

Esta “gravidez não desejada” levou ao divórcio do Reino Unido com a União Europeia, que vai ser oficializado esta semana.

É já hoje, dia 29 de março, que a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, vai assinar os papéis do divórcio: vai ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que é o mecanismo formal para abandonar a UE, num prazo de dois anos de negociações.

Estes dias, li um estudo da Universidade de Harvard que dizia que a maior parte dos relacionamentos acabam porque o parceiro é demasiado atraente.

Será a UE “demasiada areia para a camioneta” do Reino Unido?

Ou, aliás, terão os britânicos pensado bem na decisão que estavam a tomar?

Como em muitos términos de relacionamento, acho que aqui o problema foi mesmo falta de comunicação e conhecimento.
Certo é que com esta decisão, o Reino Unido deixa de poder participar nas decisões da UE no que diz respeito ao processo do Brexit e, por opção própria, abriu mão da presidência semestral do Conselho Europeu (que lhe estava destinada na segunda metade deste ano), além das consequências que não estão escritas, mas acho que são óbvias para as empresas internacionais que operam no Reino Unido ou para as empresas britânicas que lidam com o mercado exterior, assim como para a população tanto do Reino Unido como da Europa.

Isto porque vão haver novas leis de regulação e colocação ou não de tarifas para as empresas, novos tratados comerciais e o controlo das fronteiras vai, de certeza, ser muito mais restrito, incluindo para membros da UE.

No entanto, continua a ter direitos: os deputados britânicos podem continuar a frequentar os corredores de Bruxelas e Estrasburgo e as leis europeias continuam a aplicar-se ao Reino Unido, o que inclui a pertença ao mercado único europeu e os restantes acordos.

Até agora, ainda há muitas páginas em branco neste documento de divórcio, que só é efetivo quando as duas partes chegarem a acordo, o que ainda deve demorar bastante para acontecer e deixar esta situação a marinar. Por falar em “marinar”…

Há também que ter em conta que até que sejam conhecidos os próximos líderes dos dois maiores países da UE, nada de muito concreto deverá avançar, uma vez que acontecem as eleições francesas (a primeira volta é a 23 de abril e segunda a 7 de maio) e as alemãs (a 24 de setembro).
Mas o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, deixou uma promessa: nas 48 horas que se seguem à ativação do artigo 50, irá apresentar as linhas orientadoras do Conselho Europeu para as negociações do Brexit.
Mas, ao que parece, pode haver ainda mais uma gravidez. Mais de 60% dos escoceses escolheram ficar na UE, o que faz desta a maior diferença em todas as regiões e nações do Reino Unido.

Por isso, paira no ar a longínqua possibilidade de um referendo sobre a independência da Escócia em relação ao Reino Unido (o que já se passou em 2014, mas não resultou em mudança alguma).
Para isso acontecer, seria preciso a aprovação do parlamento escocês e do britânico e, cá entre nós, se uma gravidez já traz tantas mudanças à Europa, que já está abalada que chegue com os problemas que tem, imaginem duas na mesma zona?

Um “bebé” é sempre visto como símbolo de toda a ternura e pureza do mundo, mas, neste caso, as aspas são bem precisas, porque este Brexit parece símbolo do individualismo.