O Género da Desigualdade – Parte I

Teresa Morais

Bisturi Embaixadora/Cronista


E​ ​ao​ ​terceiro​ ​artigo,​ ​vou​ ​falar​ ​de​ ​igualdade​ ​de​ ​género.
Quem​ ​me​ ​conhece​ ​já​ ​estava,​ ​com​ ​certeza,​ ​à​ ​espera​ ​disto.
Tentei evitar o tema, mas o tema faz parte de mim. Infelizmente, ainda não chegou a Portugal com a força desejada. Ou seja, com a estrutura e coerência que impossibilite o rótulo de tendência, de método de caça ao like,​ ​de​ ​moda​ ​passageira.

O tema é sério.


A igualdade de género é produto directo dos mais básicos princípios humanos de igualdade e dignidade humana. É, por isso, necessário tratar o tema com o devido rigor. Deixando de lado a memória de séculos de piadas, clichés e preconceitos em relação aos que se dedicam ao tema.

Não há área dos direitos humanos que, hoje em dia, suscite mais preconceito do que a igualdade de género. Apesar da enorme batalha pela frente, dos preconceitos inconscientes e de Trump e sua corja enlouquecida, há um consenso generalizado em relação à condenação do racismo. Há uma admiração generalizada pelos que combatem a pobreza. E, no entanto, promoção da igualdade de género é a forma mais rápida e eficaz de promover tanto a erradicação da pobreza como a diversidade e tolerância.

Está provado que o empoderamento das mulheres é a melhor forma de proporcionar uma distribuição de renda equitativa. Estando a falar de mais de metade da população, e atentando ao padrão feminino de distribuição de rendimento pela família e educação, empoderar mulheres, é hoje fomentar o desenvolvimento não só de metade da população mundial, como das suas famílias, comunidades, países.

É multiplicador de riqueza e de mobilidade social. Como explicar, então, a falta de consenso em relação à necessidade de empoderamento feminino? Em primeiro lugar, pelo desconhecimento do conceito por parte da generalidade da população.

É prioritário realçar que empoderamento feminino é liberdade. Que não se confunda o conceito com o forçar de uma decisão relativa à profissão, com o padronizar do ideal de executiva de sucesso, de mulher masculinizada, ou, ainda, de ditadura da feminilidade, de mulher mãe a tempo inteiro ou de fada-do-lar. O empoderamento é independente de julgamento. O empoderamento é, precisamente, a entrega da decisão à mulher.

A batalha trava-se pela libertação de obstáculos, muitas vezes inconscientes, à livre concretização da vontade. Define-se como a decisão em consciência, livre de preconceitos, de pressões societárias ou de comodismos típicos da insegurança de séculos de constrangimentos. É importante que todos se familiarizem com este conceito de autonomia, ausência de preconceito, de empoderamento enquanto liberdade e celebração da diferença.

É também importante não demonizar audiências. Como nos explica Janet Crawford nesta ​TED brilhante​, todos nós – homens, mulheres, feministas e cépticos – continuamos, a espaços, a deixar que alguns preconceitos inconscientes tomem conta de alguns processos cognitivos. Um bom exemplo é o ​problema do cirurgião​. Sugiro que vejam o vídeo e que procurem responder à adivinha proposta pela apresentadora. Se por acaso acertarem, parabéns.

Mas, repare-se que a reacção dos entrevistados é de espanto e vergonha, o que indica que estamos a falar de pessoas preocupadas com o tema, que pura e simplesmente deixaram o insconsciente funcionar. Este inconsciente recipiente de experiências e emoções retiradas de um mundo em que as mulheres ainda são desproporcionalmente representadas, ainda prega partidas a todos, sem excepção.

O esforço para fugir do aparentemente​ ​óbvio​ ​tem​ ​que​ ​ser​ ​colectivo,​ ​persistente​ ​e​ ​individual.
Outro conceito que gera alguma confusão é o de igualdade de género. Para uma abordagem rigorosa do conceito, é necessário começar pelos consensos: Penso que há poucos que, hoje em dia, contradigam o consenso  em torno da ideia de que todos os Seres Humanos têm direitos​ ​iguais.

Relembrando o Artigo 1º Da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com
os outros em espírito de fraternidade.” 

Parece “lapaliciano” reafirmar este princípio, mas neste mundo de intolerância é mais do que nunca necessário voltar ao básico.

Partindo deste pilar avançamos para a segunda evidência: a capacidade não têm género.

Aqui podem já os leitores mais cépticos argumentar que “as mulheres e homens pensam de forma diferente, o próprio funcionamento do cérebro é diferente”. Verdade que os cérebros são diferentes, no entanto, não há qualquer limitação no cérebro feminino ou masculino que impeça a performance intelectual em qualquer área do conhecimento.

Como diz Luísa Vaqueiro Lopes, cientista do Instituto de Medicina Molecular “não há diferença na capacidade entre homens e mulheres. Há, sim, diferenças nas estratégias que cada um utiliza.

A título de exemplo, imaginemos um caminho: as áreas do cérebro que são activadas em homens e mulheres são diferentes, a estratégia para fazer o caminho é diferente, mas ambos conseguem chegar ao mesmo resultado.

Neste sentido, estudos como ​este suportam cientificamente aquilo que o senso comum de alguns nem sempre atinge; a diferença não é obstáculo ao bom resultado e, sim, hipótese de explorar diferente caminho​ ​para​ ​o​ ​mesmo.
O que nos põe o problema seguinte: porque é que, então, temos áreas do conhecimento com percentagens residuais de mulheres (ex, cursos de engenharia, novas tecnologias, etc). Neste ponto começamos a entrar na questão do estímulo intelectual, nos tais constrangimentos mais ou menos inconscientes que as mulheres encontram no seu caminho de crescimento.

Como o artigo vai longo, irei abordar esta e outras questões relativas ao tema no próximo artigo.

Separo as duas questões e opto por definir, num primeiro capítulo, os conceitos referidos porque considero serem estes chave para uma abordagem mais imparcial e rigorosa do fenómeno da desigualdade de género. Pessoalmente, porque estou cansada que os cataloguem como os novos papões do momento.

Porque subsiste uma visão fundamentalmente errada destes princípios que condena, à partida, o entendimento e o consenso. Volto ao básico porque o básico está esquecido: os valores estão à venda, os conceitos deturpam-se a cada dia, os factos já não importam e a sociedade presume haver uma batalha onde só pode haver busca de acordo e liberdade. Volto daqui a um mês a esta plataforma para a qual escrevo com orgulho desmesurado e, que, relembro, está candidata aos European Diversity Awards​ ​e​ ​European​ ​Youth​ ​Awards.

Deixo-vos com uma frase inspiradora da actriz Demi Moore, que roubei da​ ​Luísa​ ​Vaqueiro​ ​Lopes​ ​e​ ​que​ ​levo​ ​para​ ​a​ ​vida:
“We​ ​got​ ​it.​ ​We​ ​just​ ​have​ ​to​ ​own​ ​it!”