Opinião no Jornal O Matosinhense | A democracia dos cidadãos e a democracia dos partidos

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora


A democracia dos cidadãos e a democracia dos partidos

 A democracia, um pouco por todo o mundo, desafia os padrões que a edificaram durante décadas a fio.

Assistimos ao crescimento de adeptos perante discursos políticos, populistas e isolacionistas.

Uma parte do nosso mundo, das nossas populações, parece ignorar, ou ter esquecido, que foi esta estirpe de discurso e de forma de fazer política que deu origem a guerras e a ditaduras.

Não deixa de ser ainda mais preocupante que vários partidos se deixem cair na tentação de adaptar os seus discursos ao radicalismo, devido ao sucesso eleitoralista que os mesmos têm verificado.

Se pensarmos ideologicamente, vemos os partidos afastarem-se grotescamente das suas matrizes de pensamento e dos seus valores, defraudando as expectativas do seu eleitorado mais leal, fiel e, sobretudo, atento ao que se passa por este mundo fora.

A par da propagação dos discursos populistas, saem à rua movimentos ditos cidadãos, que se mascaram como alternativas aos partidos políticos e à democracia bafienta em que estamos mergulhados e que se traduz pelo gradual afastamento dos cidadãos da política e pelas elevadíssimas taxas de abstenção de voto.

Parece-me extremamente positivo para a democracia que o debate de ideias e de pensamento seja transversal e se efectue fora e dentro dos partidos, até porque estes são compostos por cidadãos de carne e osso, não deixando de ser em si mesmos movimentos de cidadania em acção.

No entanto, é extremamente negativo que estes movimentos mascarem e fabriquem, à medida daquilo que o povo necessita ouvir, supostos novos agentes políticos.

Vejamos o fenómeno Macron na França. Vimos ser eleito um ex-militante do partido socialista e ex-ministro de um governo socialista. Será o movimento encabeçado por Macron um movimento que faz respirar a democracia, quando é composto por caras tão conhecidas pelo povo Francês?

É este um movimento com origem na sociedade civil? Que ideias defende na realidade? Novas ideias ou antigas ideias com a conotação socialista do seu líder?

Devo acrescentar que teria votado Macron na França perante a ameaça da Frente Nacional naquelas eleições…

Aquilo que me assusta verdadeiramente nestes movimentos é que não sabemos exactamente ao que vêm. Ao contrário dos partidos, também eles compostos por cidadãos de carne e osso, estes movimentos não prestam contas nem obedecem a regras e isto, nesta medida, é absolutamente assustador e sobretudo imprevisível.

O eleitor nunca sabe o que contar com a aposta nestas soluções, que teriam tudo de legítimo se, efectivamente, fossem compostas por sangue novo da sociedade civil, com uma matriz de valores bem definidos e com ideias e propostas próprias para o bem comum.

No fundo, seria fulcral que estes movimentos não se traduzissem pelo oportunismo eleitoralista, mas sim por uma composição robusta de oxigénio para a democracia, com novos actores, anónimos para a maioria de todos nós.

Ganhava a democracia e ganhavam também os partidos que, ao invés de adaptarem os seus discursos a discursos radicais, ponderariam inundar-se por novos actores e novas ideias vindas da sociedade civil, de forma a acompanhar estes novos movimentos.

Em Matosinhos temos um bom exemplo de toda esta situação com a fragmentação de actores políticos do partido socialista.

Aguardemos pelo resultado eleitoral…