PORTUGAL é um país para velhos!

Sandra Carvalho

Bisturi Cronista | Foi oradora na Bisturi Talks @fnac de Fevereiro de 2017


Todos envelhecemos, por isso o envelhecimento individual (de cada um de nós) faz parte do nosso quotidiano. Porém, começámos recentemente a ser confrontados com um outro envelhecimento, de tipo colectivo: o envelhecimento da população em geral. A população envelhece porque a Humanidade cresceu em conhecimento técnico-científico e as condições de vida das populações melhoraram.

Portugal será um dos países da União Europeia (UE) com maior percentagem de idosos e menor percentagem de população activa em 2050, segundo dados do Eurostat.

A população jovem portuguesa terá uma quebra de 40 % até 2060, preveem os técnicos da Comissão Europeia. E Portugal, que já é o sexto país mais envelhecido dos 28, será cada vez mais um país de velhos.

demonstram completa desatenção pelas contingências das condições de saúde Muitos falam dos perigos do aumento da esperança de vida e do envelhecimento demográfico, mas o problema não reside no envelhecimento, no aumento da esperança de vida ou noutras conquistas civilizacionais similares e sim no facto de as sociedades não se terem adaptado e de continuarem organizadas e a fazer fortes investimentos no que sempre fizeram no passado.

 Há quem fale até em “peste grisalha”. Isto é um problema?

Será pois a sociedade não está a saber tirar proveito do crescente número de pessoas mais velhas, deste capital humano.

Numa era de defesa dos direitos da cidadania, reconhecimento político da diferença e democracia cultural, os idosos estão numa crise de cidadania, conforme a sociedade de hoje celebra a vida e tem aversão pelo envelhecimento. Isto produz, além de ostracismo cultural e simbólico, destituição económica, com simultânea redução de recursos e perda de acesso a recursos; e vulnerabilidade política em detrimento da identidade e seus direitos. Esta situação é particularmente problemática em Portugal, onde, além de tudo, a crise económica atingiu o idoso ainda mais intensamente que outros grupos, porque, em particular, as medidas de austeridade que afetam os idosos.

O envelhecimento demográfico está a desafiar-nos. Ou conseguimos, enquanto sociedade, estar à altura ou não! Os problemas têm no essencial que ver com a defesa incondicional de um passado, numa sociedade que já nada tem que ver com o que era.

Há, um vasto problema anunciado, importando rever os pressupostos que nos conduziram até ele, a começar por reequacionar o sentido de continuarmos a considerar a idade como critério ótimo para balizar os papéis direitos e deveres dos cidadãos.

É normal que sejam deixados nos hospitais pelos filhos e pelos netos?

Não tenho capacidade para compreender como é que se deixa um pai ou uma mãe abandonado num hospital ou em casa. O processo de suporte social para com os idosos deve alicerçar-se no envolvimento do cidadão e da sociedade. Esta realidade apresenta um enorme desafio civilizacional às sociedades contemporâneas, exigindo, delas, a criação de estratégias voltadas para os cuidados a serem prestados a esta população.

Em breve teremos um país envelhecido, iremos encontrar vários milhões idosos abandonados, morrendo sozinhos, desprotegidos, vulneráveis. Temos, no presente, certamente, um país e um povo, que não respeita o seu melhor legado, a sua História, a sua cultura e as suas gentes mais cultas, mais experientes e mais sabidas, mais bem instruídas e formadas, que, portanto menospreza as suas maiores e perenes riquezas e, a continuar assim, caminhará para uma hecatombe.