Uber: os desafios da economia de partilha

João Fortes

Bisturi Cronista


Foi nos últimos anos, que assistimos ao surgimento de diversas empresas sob a égide da apelidada economia de partilha, tal como é o exemplo da Uber. Mas o que significa esta denominada economia?

Um exemplo muito prático: ao invés de ter que comprar um berbequim para a bricolage de casa, algo que não vou utilizar mais do que três vezes ao ano, posso simplesmente alugar um a quem não o esteja a utilizar, neste momento. Parece lógico o ganho de eficiência, contudo se os benefícios para o consumidor são evidentes, os custos paraas empresas tradicionais podem ser terríficos, caso não se adaptem à mudança.

A Uber é um dos exemplos de sucesso neste tipo de economia, sendo simultaneamente uma das empresas mais contestadas por esse mundo fora, designadamente pelos taxistas. A verdade é que existem outras empresas semelhantes, com o mesmo núcleo de atuação, contudo, convém recordar que a empresa aqui em questão é a maior em dimensão neste tipo de operações, além de ter demonstrado um crescimento, em apenas seis anos, capaz de a levar a ultrapassar, em termos de cotação, a centenária GM.

É simples a solução da Uber, tendo em conta a presente digitalização da economia e o acesso generalizado à Internet: oferecer deslocações a quem as procura, estando tudo em perfeita sincronia com a app disponibilizada pela plataforma. Atenção que os carros não são da Uber, apenas os condutores estão associados à empresa, assinando um contrato em que as receitas são dividas pelos dois intervenientes.

Vantagens da Uber, em relação ao setor de táxis tradicional? São algumas em minha opinião, começando pelo preço, que em regra, tem tarifas mais apelativas, mas, isso é apenas um dos atributos. Mais interessante a meu ver, é o facto de não ter que ligar para um táxi ou esperar pelo mesmo na rua, visto que me basta apenas solicitar o transporte através da aplicação, aguardar, acompanhar o trajeto em direto, e subir para o carro. Ou seja, podemos prolongar mais aquele café com o amigo que não vimos há anos…

Podemos também, depois de ter gasto o dinheiro que restava na carteira, naquela “noitada” até ás 7H00 da manhã, solicitar um carro da Uber, já que os pagamentos são efetuados via-eletrónica, com um cartão associado aquando do registo na aplicação. Neste elenco daquilo que eu considero vantagens, temos ainda a possibilidade de ver o perfil do condutor antes de solicitar o carro mais próximo de nós, o que significa que podemos minimizar os desentendimentos sobre qual o clube que devia ter vencido a jornada da liga de futebol, em pleno fim-de-semana.

Enquanto tudo isto parece acertado em relação a qual deve ser o futuro a aplicar nos modelos de transporte, temos que ter em conta os impactos sociais e económicos que uma mudança abrupta como esta, podem ocasionar. O sucesso da Uber foi disruptivo para a indústria tradicional dos táxis, o quem em muito contribuiu a forte regulação ao qual está sujeita, entre taxas que são fixadas ou licenças para operar no mercado. Por outro lado, a Uber não necessita deste tipo de licença, portanto podemos extrapolar o quão difícil se tornou a situação para os taxistas, quando nem as licenças que detêm, os protegem da concorrência.

Em Portugal, temos assistido a um lobby desta indústria que não tem conseguido agir em prol de uma solução inovadora ou construtiva, pois os preços regulados continuam por reduzir e os serviços disponibilizados continuam a ser os mesmos. Em contrapartida, temos exemplos, em determinados países, onde a indústria dos táxis respondeu de forma pró-ativa, renovando as suas frotas e também, lançando aplicações móveis para a redução dos custos para o consumidor final.

Na Europa, o cenário tem sido tenebroso em vários países, com discussões em tribunais, com o apontar de dedo em relação àquilo que a Uber não cumpre, principalmente em termos de requisitos da atividade e por representar, uma proclamada, concorrência desleal face à indústria tradicional.

Soluções? Nunca passariam, a meu ver, por banir a Uber, mas sim pela regulação da mesma. O “cartel” dos táxis não tem tornado as coisas fáceis, mas deve reconhecer que a concorrência injusta que reitera, resulta das assimetrias regulamentares entre táxis tradicionais e as novas plataformas de partilha de transporte.

Vai ser necessário ao setor dos táxis apostar na tal inovação já referida, e adotar novas tecnologias, de modo a melhorar os serviços que atualmente oferece. Dito isto, anular a tarifa fixa, não sendo alvo de regulação, poderia potenciar em muito a convivência entre as duas plataformas.

O curioso, é que se a indústria tradicional não conseguir ter capacidade de resposta, o que acontecerá é que, gradualmente, os táxis tenderão a desaparecer, e assistíramos a um provável domínio da Uber, monopolizando o mercado e dificultando a entrada de novos competidores, permitindo que os preços voltassem a aumentar.

Esperemos que todos os atores interessados na matéria articulem uma estratégia, que vise, acima de tudo, beneficiar o consumidor final, garantindo um mercado dos transportes que salvaguarde um bom serviço com preços ajustado à realidade.