A Cartuxa é Património de Évora!

Luís Nunes dos Santos

Bisturi Cronista


Julgo que como Eborense nascido e criado é meu dever prestar a devida homenagem à Ordem da Cartuxa (Ordem de São Bruno), pois eles fazem parte de uma memória longínqua de uma cidade que foi acontecendo, que foi crescendo, que foi sofrendo as agruras dos tempos. Os monges cartuxos são coevos de toda uma história e de estórias que se foram passando na nossa bela cidade.

Aliás podemos até afirmar que eles escreveram uma parte dessa história ao serem parte de um edificado, do território, mas também parte da sociedade e das pessoas, os cartuxos são um pedaço da nossa cidade de Évora, a sua triste partida é também a partida um pedaço de Évora e é por isto mesmo uma perda incalculável a nível cultural, histórico e acima de tudo religioso.

Évora chegou a ter mais de 30 conventos, tanto femininos como masculinos, os edifícios e as marcas da religião católica ainda hoje marcam as ruas, marcam as praças, até marcam o tempo com os seus sinos medievais, mas infelizmente já não marcam o coração e os valores do ser humano como antes.

Nós não temos certamente a informação do primeiro convento e da primeira ordem a vir para Évora, sabemos quais as ordens que cá professaram, sabemos também o porquê de não as haver mais, mas chegamos a 2019 e sabemos que a ordem da cartuxa é a última, depois do dia em que os quatro monges se forem embora já não há mais conventos em Évora em funcionamento e o Scala Coeli (escadas para o céu) fica à mercê do seu próprio destino, vazio por dentro, mas esvaziado da função para aquilo que foi construído, a vida ermita da clausura monástica de contemplação.

Temos por isso que saber salvaguardar este património material e imaterial dos Eborenses, do Portugueses e da Cultura Ocidental.

Em primeiro lugar as entidades eclesiásticas da cidade, em conjunto com a Fundação Eugénio de Almeida, o dono do mosteiro devem tentar preservar ao máximo o espaço como um espaço de recolha espiritual, certamente existem congregações religiosas que têm a disponibilidade de ir e habitar o convento da cartuxa Scala Coeli.

Temo por demais que este histórico mosteiro se torne mais um espaço hoteleiro, eu acho que a nossa aposta em desenvolver a economia da região passa claro por empreender, apostar e investir mais e melhor no turismo, no entanto há outros espaços com essa potencialidade, a cartuxa para mim deveria continuar a ser um lugar de cultura contemplativa e isso perde-se totalmente se o mosteiro se tornar em mais um albergue de 5 estrelas.

Dito isto, em segundo lugar se não houver nenhuma possibilidade de outra congregação habitar a cartuxa então pela preservação da memória histórica e para que mais pessoas possam sentir o espírito deste antigo, mas ainda actual mosteiro, deve-se avançar para a criação de um centro interpretativo onde podia ser possível contar a forma de vida dos monges e a sua pegada histórica ao longo dos anos na nossa cidade.

Acho que só assim se pode mitigar em parte a grande perda que é a saída dos monges cartuxos.
Apelo, portanto, a que as entidades envolvidas pensem no assunto com o cuidado devido, tantas cidades a querem ter o património que Évora tem, é por isso nosso máximo desígnio, tentar preservar este nosso legado, para que outros daqui a uns anos conseguirem usufruir dos encantos e da história de Évora.

Todos nós que amamos Évora ficamos tristes com esta partida por isso é nosso dever sabermos fazer bem as despedidas.
”Stat crux dum volvitur orbis” (a cruz permanece intacta enquanto o Mundo percorre a sua órbita) é este o lema da ordem da cartuxa.

Temo que com este fecho de ciclo o mundo continue a percorrer a sua orbita, mas Cruz essa, infelizmente deixou de estar intacta.
Sem História, não há memória e sem memória não há Futuro…