As Vacas Sagradas!

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Cronista, Autor Sapo Blog Debaixo dos Arcos


As questões ambientais, mais do que estarem na moda, são o grande tema da agenda política internacional, desde a ONU (são várias as afirmações e intervenções de António Guterres sobre o ambiente) ao Vaticano (nota para a Carta Encíclica, do Papa Francisco, Laudato Sí, sobre os cuidados com a “casa comum”). E são-no pela sua importância e impactos para a sobrevivência humana, para todos os seres vivos, e para a preservação do planeta, salvaguardando o presente e precavendo o futuro.

Por outro lado, recentemente, entrou também no espaço público a temática da nutrição e da alimentação saudável, apesar da confusão entre o que é “comer saudável” e o que são opções alimentares. Estas últimas mais relacionadas com modas e caprichos sociais do que propriamente com opções alimentares (mesmo que as haja).

Juntar as duas temáticas, embora possam ser relacionadas, traz uma mistura que, passando a linha racional, corre o risco de facilmente se tornar explosiva, pela demagogia, pelo populismo e extremismo, desvalorizando e menorizando a sua importância, o seu papel e o seu impacto.

Mas se ainda se pode entender (mesmo que não se concorde) que estas confusões e misturas surjam no cidadão comum, o mesmo torna-se incompreensível e inaceitável quando em causa está o universo científico e o espaço do saber e do conhecimento por excelência.

Esta semana, a Universidade de Coimbra (UC) decidiu abolir, proibindo a partir de janeiro de 2020, o consumo de carne de vaca nas suas 14 cantinas universitárias.

Que a Universidade de Coimbra (ou qualquer Universidade, ou qualquer entidade pública ou privada, ou qualquer comunidade, ou qualquer cidadão, ou qualquer…) tenha como preocupação o cuidado ambiental e as alterações climática (graves e cada vez mais frequentes) é de louvar. Que a UC queira tentar ser descabornizada (pegada zero de carbono) é um desafio e uma meta louváveis. Que uma instituição de ensino superior, essencial para a promoção da ciência e do saber e para a valorização do conhecimento, embarque em sensacionalismos e extremismos, pondo em causa o racionalismo e, até mesmo, os valores científicos, é de bradar aos céus.

Com a medida anunciada pelo Reitor da mais antiga Universidade do país, Coimbra até poderá ser a primeira (como o Reitor definiu) instituição portuguesa de ensino superior neutra em carbono. Mas também não deixa de ser a primeira universidade a cair no ridículo, no facilitismo de decisões demagogas, num alvo fácil para as críticas (fundamentadas) e para a chacota.
Primeiro, porque o aumento da produção de CO2 tem outros factores e origens muito mais relevantes que a influência bovina (que produz metano há séculos). Por exemplo, os transportes, a indústria, o plástico, a energia, etc.
Segundo, porque a consciencialização do mundo rural para as alterações climáticas é hoje muito elevada, já que elas têm, na agricultura, um impacto muito forte.
Terceiro, porque a produção animal (nomeadamente a criação de bovinos) faz-se, hoje, com elevados cuidados ambientais e uma melhoria considerável nas suas práticas. E não é líquido que a denominação de “alimento mau”, substituído por hipotéticos “alimentos bons”, traga benefícios no excesso de produção alimentar nacional e mundial. Isto porque, por exemplo, a substituição da carne de vaca pela soja, exigindo um produção extensiva desta
leguminosa provoca, igualmente, conflitos ambientais (como, por exemplo, o excesso de consumo de água).
Quarto, porque a agricultura é o sector que mais fixa carbono, mas contribui também com 10% para as emissões. Destes 10% apenas 2,5% dizem respeito aos ruminantes e destes só 1,5% diz respeito aos bovinos de carne. A descarbonização da sociedade portuguesa não se resolve à custa dos bovinos de carne, nem reside aí a sua maior preocupação (dados Ministério Agricultura, dezembro 2018).
Quinto, porque a decisão não democratiza a opção e liberdade de escolha da dieta alimentar de cada um (seja com carne, peixe, vegetais, fruta, etc.).
Sexto, porque é um ataque e uma afronta à comunidade científica, nomeadamente ao processo de ensino presente no Instituto Politécnico de Coimbra, nomeadamente na sua Escola Superior Agrária.
Sétimo, porque a coesão territorial, a defesa da interioridade e da ruralidade, dos impactos demográficos, devia estar presente nas opções e acções da Universidade de Coimbra. Há, nesta decisão, um claro e óbvio sentimento de superioridade do urbano em relação ao rural.
Oitavo, porque não são conhecidas, nem foram tomadas, medidas mais eficazes para a mitigação ou para a descabornização da Universidade de Coimbra, como, por exemplo, eficácia energética, redução (ou eliminação) do plástico, entre outros.
Nono, porque os alunos que aplaudiram a opção da Reitoria da UC são os mesmos que optam por “dietas sociais”, por pseudoambientalismos, mas que não deixam de lado os pópós novos que os papás ofereceram quando terminaram o 12.º ano.
Décimo e por último, porque é muito fácil contrariar o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra. Contrariar e banalizar… basta perguntar que exemplo o mesmo reitor dá na defesa e preservação do ambiente e do planeta. Por ventura, segue o exemplo do autarca de Amesterdão que se desloca para o trabalho de bicicleta? Isto seria, seria o melhor contributo para uma pegada ecológica mais verde na Universidade de Coimbra.

Bastavam 10 “mandamentos” para uma decisão mais ponderada, mais ambientalista, mais racional e científica. No mínimo…