Bloco de Verdades: Gentrificação Política

Luís Nunes dos Santos 

Bisturi Embaixador/Cronista


Era uma vez um partido, relativamente recente no panorama político português, esse partido foi formado com a missão da refundação das esquerdas ao propor uma ruptura com a civilização capitalista que estes diziam ser exploratória, opressiva e nefasta para o bem-estar da sociedade idealizada por eles.

Este partido foi formado com a convergência de três forças políticas: a UDP com tendência leninista, o PSR de influência trotskista e o Política XXI uma força de dissidentes do PCP e do MDP/CDE.

Esta união de forças é clara no que toca ao posicionamento ideológico, nada mais que a esquerda radical, apologista orgulhosa da castração da iniciativa privada e de uma sociedade onde a propriedade é crime, onde tudo gira na esfera da máquina estatal.

Este partido dizia ter coragem ao assumir o combate nas suas posições fracturantes de oposição mantendo-se de fora do objectivo do exercício de governo, como nos diz o manifesto inicial de 1999 às legislativas.

Esse partido somente de oposição foi o Bloco de Esquerda… como mudou desde 1999.
Para um jovem como eu que tem por base a democracia séria e honesta onde os valores das convicções tomam um valor ímpar no debate público, quero dizer que o Bloco de Esquerda me desiludiu.

Apesar de não ser nem de perto a minha área ideológica um partido como foi o bloco fazia falta no espectro político, é sempre necessário alguém que faça barulho com abnegação de nunca ser poder.

Ora o Bloco de hoje esqueceu o seu início, vendeu-se ao populismo moral de militantes burgueses que por algum motivo se acham donos de uma razão utópica só deles. A lógica do “eu” posso tudo mas os outros não podem nada apoderou se do Bloco quase como um grito de sobrevivência, uma vez que hoje o bloco é uma esquerda cada vez mais igual à esquerda do PS.

Este caso que tornou o verão mais quente de Ricardo Robles é o exemplo da “gentrificação” política de um partido que foi construído para combater aquilo que se tornou.

Se acção de Ricardo Robles foi péssima a todos os níveis, uma vez que Robles o “político” anti-capital contra o alojamento local, a favor de ocupações e contra a propriedade privada e que fez campanha em grande parte contra a especulação imobiliária, contradiz o Robles do grande capital dos milhões, investidor astuto e “gentrificador implacável”, então a defesa do tema que envergonha o Bloco de Esquerda por parte de Catarina Martins a “atriz” foi um completo desastre e mostra que só está habituada a apontar dedos aos outros e não soube a tempo fazer o acto óbvio de contrição metendo o partido que lidera no olho do furacão.
Isto tudo mostra que Catarina a “política” populista sem guião previamente escrito e ensaiado, é uma líder fraca para estar à frente de um partido que outrora já foi de combate e oposição severa.

Mas se a questão toda foi despoletada por Ricardo Robles o ex- vereador, foi continuada por Catarina a política, porque dizem as notícias que também ela é dona e fundadora e ex-sócia gerente de uma empresa que detém 4 alojamentos locais no interior do país. A visão de Catarina a “empresária” é que um alojamento local num espaço rural ajuda a fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país.

Será que esta afirmação da Catarina a “empresária” diz-nos que para esta o capitalismo no interior rural é benéfico para as pessoas? Parece que sim. Alegadamente uma noite no alojamento local da famíllia Martins custa por noite 120€, fico na dúvida se a coordenadora do Bloco de Esquerda empreendeu no interior para ganhar dinheiro ou para fixar população?

Resumindo, Ricardo Robles já não é vereador, Catarina a “política” já não está no pedestal da moralidade superior na política, e o Bloco é cada vez um partido de burgueses progressivos que defendem umas coisas para os outros mas não para eles.

Tenho pena dos jovens que fizeram parte do acampamento do Bloco de Esquerda, que vivem de forma diferente a política, e que as suas convicções correspondem a forma como vivem o seu dia-a-dia, uma vez que foram enganados, não se pode fazer palestras sobre os malefícios da gentrificação e depois os altos quadros do partido fazerem especulação imobiliária, despejarem pessoas e ter alojamentos locais, tudo o que são contra.

O que é certo é que está coordenação do Bloco de Esquerda traiu aquilo para que foi feito o partido, mas diga-se em abono à verdade que o BE simplesmente resignou-se à sociedade que hoje temos, depois disto fica claro que a cartilha da democracia para o socialismo já não é para este Bloco, perderam essa moral ao tornaram-se reféns dos interesses do capital financeiro.

Este Bloco de Esquerda prometeu, especulou o populismo, filosofou Marx e Trotsky, sentiu-se superior a tudo e a todos, como dono inteiro de uma versão da razão e da verdade, perdeu as bases fundadoras ao fazer parte de uma solução de governo e foi apanhado num escândalo com o grande capital.

Depois disto para reflexão faço minhas as palavras sábias de George Orwell no livro a Quinta dos Animais: “… as criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco, e de um porco para um homem outra vez, mas já era impossível distinguir quem era homem e quem era porco”.

Palavras sábias que caracterizam aquilo que o Bloco de Esquerda de Catarina a “política” e Robles o “capitalista passou a ser”.


( Esta plataforma não tem naturalmente rigorosamente nada contra o Bloco de Esquerda e os seus intervenientes. Não  nos responsabilizamos pelas distintas e naturais opiniões dos nossos autores face às recentes notícias que inundaram os Media.

Dispomos do Espaço Opinião Pública para colectar opiniões que possam ser distintas às publicadas pelos cronistas)