Crónica de uma Backpacker no Japão – desfazer mitos, Parte I

Adriana Correia

Bisturi Cronista, Autora do Blog de Viagens “Insiders of the World”


Fui para o Japão com bilhete comprado no início de dezembro, de Seoul para Osaka. Meses mais tarde compraria o meu bilhete de saída para dali a duas semanas de Tóquio. Desde logo percebi que era muito pouco tempo para um país tão grande e interessante como o Japão mas o meu tempo escasseia desta vez e eu não podia simplesmente ficar até quando sentisse que era altura de comprar outro voo para outro sítio qualquer.

Não fiz grandes pesquisas sobre preços nem o que queria visitar nas poucas cidades que tinha na minha modesta lista do meu bloco de notas pois queria surpreender-me e queria desenvolver as minhas próprias opiniões e sensações ao estar lá. Já bastavam as ideias que tinha do Japão e dos japoneses antes de ir e que acabaram por ser lentamente destruídas ao longo destas duas semanas. E já vos vou explicando melhor cada motivo.

Voei de Seoul para Osaka pela Peach e o voo foi super tranquilo. Sabia que ia numa das melhores alturas para visitar o Japão e que muitos chineses viajavam nesta altura também devido à cherry blossom e à Sakura, ou seja, a semana em que as flores de cerejeira e outras árvores e flores mostram melhor o ar da sua graça e beleza

Mal cheguei a Osaka percebi que ia entrar num novo mundo, bem mais desenvolvido e tecnológico. Depois das Filipinas, a curta estadia em Seoul não me chegou para não sentir o choque cultural do que é ter transportes com qualidade e tudo ser fixo e pouco mutável. Mais uma vez com poucas horas de sono de qualidade em cima, decido parar para almoçar, beber café, comprar um novo cartão SIM e seguir viagem para o ponto de encontro com o meu host do couchsurfing.

Quem me conhece minimamente bem ou já segue o me blog há algum tempo, sabe que não sou grande fã de cidades, pelo que andar de metro é um evento grande para mim. Em Osaka, logo para iniciar a minha aventura, tive de apanhar três linhas diferentes a demorar imenso tempo cada uma e apanhar hora de ponta ali na terceira, conseguindo-me perder nesta última. Tentei perguntar em inglês para onde devia ir a umas três ou quatro pessoas diferentes nas estações a que chegara mas o inglês é fraco ou inexistente e, por isso, difícil o entendimento. Logo aqui destruí a minha primeira ideia de que os japoneses falavam muito bem inglês. Não, não falam. Sem a app do Google tradutor não me safava. Decidi então desistir destas tentativas falhadas, agarrei na minha mochila já com doze quilogramas e pus estas perninhas a andar.

Como não comprei o Japan Rail Pass, sabia que tinha de caminhar imenso e depender um pouco das boleias que me iam dando. E assim foi. Nas duas noites que estive em Osaka consegui ver tudo o que havia de mais interessante para descobrir e, ainda assim, não me maravilhou. Andei uma média de 26km por dia e chegava ao final do dia super estafada. A melhor recompensa era chegar a casa com uma família tipicamente japonesa cujo filho mais velho era o host do couchsurfing e os seus pais achavam que ele era maluco por receber tantas pessoas de países tão diferentes a toda a hora.
O mais impressionante é que todas as manhãs os seus pais preparavam um mega pequeno-almoço, diferente todos os dias, composto pelo belo chá verde e café bem como outras iguarias japonesas. Isto dava a energia suficiente para andar o número médio de quilómetros que mencionei anteriormente. Ao conversar com o Toshi, entendi que o estilo de vida que um japonês tem é semelhante seja em que cidade for no Japão e que prende-se sobretudo por estudar o dia todo enquanto está no ensino obrigatório e começar logo a trabalhar mal termina as suas obrigações escolares. Também eles com um horário de trabalho que nunca é o estipulado uma vez que as horas extra são consideradas normais, nunca pagas e raramente reconhecidas como esforço por parte do colaborador, pois faz parte da cultura fazê-lo e pronto. Daí a taxa de suicídio ser também tão elevada no Japão. A pressão que eles sofrem desde cedo é enorme, sem terem tempo para serem crianças nem tão pouco adolescentes. Ele contava-me também que muitos são os japoneses que fazem intercâmbios ou fazem mestrado fora de modo a conseguirem viver um pouco da liberdade que um jovem normalmente tem naquela fase da vida.

Esta realidade fez-me novamente reflectir sobre a minha e em como é tão importante ter tempo para nós próprios e não depender de outros para atingir uma felicidade falsa. Estes jovens e adultos não são nem eficientes de forma geral nem sabem o que é viver a sério. E isso entristeceu-me.

De Osaka seguiu-se boleia para Quioto onde passei quatro noites em dois hosts diferentes.  Esperei pela boleia trinta minutos mesmo antes da entrada para a auto-estrada que em trinta minutos me faria chegar a esta nova cidade.

As entradas nos templos ou museus rondam os 400 ou 500 JPY. Já a comida varia bastante e não consigo dar valores exatos pois depende da cidade e de onde se vá. Ao ir a restaurantes tipicamente para turistas, o valor aumenta exponencialmente. Caso a opção sejam os locais mais escondidos do centro, consegue-se comer talvez em all you can eat por 1000 JPY com bebidas e gelado incluídos ou rotating sushi por 100 JPY por prato com dois nigiris. Já outros pratos podem variar entre os 400 e os 800 JPY noutros restaurantes. Caso a alternativa seja ir ao supermercado, existem imensas opções baratas, desde sushi, a noodles instantâneos, saladas, sopas miso, curry, gratinados e tantas outras coisas boas. Mais uma vez, dependendo da escolha, esta pode custar pouco mais de um euro por refeição. Para quem estiver interessado em comer as famosas carnes, a mim aconselharam-me a comprar no talho e fazer em casa. Fica bem mais barato e a qualidade não se perde de todo.

Mais um mito que foi destruído foi: “comer no Japão é muito caro”. Não, não é.

O segundo host foi um jovem trabalhador que terminara os seus estudos há meio ano e que começara a trabalhar como comercial numa empresa de exportação de máquinas agrícolas para todo o mundo. Foi com ele que quebrei mais um mito de que os japoneses eram geralmente super activos e cuja qualidade de vida era bem elevada devido à sua preocupação com a saúde e actividade física. Quão errada estava…

Ele não fora o primeiro e único nesta viagem a falar deste tópico neste sentido pelo que fiquei mesmo surpreendida. A realidade é a de que eles após os estudos ou o trabalho, de forma geral, aproveitam o seu tempo livre para fazer nada e serem preguiçosos, agarrados aos telemóveis ou computadores a jogar ou a ver vídeos. Esta preguiça afecta sobretudo o sexo masculino mas o sexo oposto também acaba por se fechar muito no seu mundo, apesar de serem tendencialmente mais sociáveis. O curioso é que depois do jantar e, pronta para dar tudo no karaoke, a uma sexta-feira à noite, ele afirmou estar cansado e quis ir para casa, ainda não eram 21 horas!

Na manhã seguinte voltava à aventura de tentar apanhar mais uma boleia, com uma das melhores companhias de viagem que podia ter encontrado, desta vez para Nara. Após caminhar mais de uma hora até ao sítio ideal para o efeito, a espera foi de meia hora  até que uma carrinha de trabalho pára e em breve estaria no meu destino. Nara foi um dos meus destinos preferidos em todo o Japão. O templo do Grande Buda, os parques verdes maravilhosos e estar rodeada de Bambis (como os intitulei devido a um dos filmes da minha infância) foi simplesmente maravilhoso. Apesar da dor de costas sentida por ter andado o dia todo com a mochila que já ultrapassava os doze quilos, aquele dia foi especial o suficiente para que a dor seja apenas um detalhe.

Em Nara, um família tipicamente japonesa veio ter connosco e levou-nos a almoçar num buffet all you can eat para um belo shabu shabu. Esfomeadas por praticamente não termos comido nada e termos andado a um café durante o dia todo, comemos tudo o que tínhamos direito que nem campeãs, repetindo aqui e ali. Era buffet de arroz, verduras, saladas frias, pickles, sushi, carne de porco, sobremesas, entre tantas outras coisas boas.

A preparação das verduras e das carnes era feita à mesa com uma panela gigante com água a ferver e éramos nós que controlávamos o nosso “ponto”. Com a ajuda do Google tradutor a explicar como se comia a carne e como se cozinhava certos ingredientes, o jantar foi divertido e aprendemos muito, sobretudo sobre a bondade desta família que nos acolheu como se fôssemos parte dela.

Depois do jantar levaram-nos para sua casa onde dormimos duas noites e onde não só conversámos imenso, como aprendemos a fazer origami, brincámos com os miúdos e tentámos fazer a coreografia de uma música preferida dos rapazes. No dia seguinte decidimos preparar o almoço e fazer uma caminhada pela montanha à tarde. Depois de tanto shabu shabu da noite anterior, do mega pequeno-almoço que a mãe nos preparou e de toda a restante comida que nos iam sempre oferecendo, aquele hiking custou-me um bocado, tenho de admitir. Mas aquela família é especial. As mensagens que nos enviaram depois de ir embora em como tinham adorado a experiência connosco, afirmando que tínhamos sempre a porta aberta para voltar e que se iam juntar ao couchsurfing por causa de nós, fez com que ficasse agradecida por ter optado andar às boleias e usar a plataforma, em gostar de partilhar um pouco da minha vida e cultura, numa troca linda de ideias e concepções. Nós mudámos tanto a sua vida como eles conseguiram mudar um bocadinho a minha.

Seguiu-se o derradeiro desafio que era chegar o mais perto possível do Mt Fuji.

Estávamos perto de Osaka, o que faria um total de 430 quilómetros em boleias até Fujinomyia. Das 8 às 17:30 e três boleias depois, o desafio ficou completo! No intervalo das três boleias à espera voltou a ser meia hora, sendo a primeira paragem numa estação de serviço perto de Quioto e a outra numa outra estação de serviço a uns 40 quilómetros de Nagoya.

(a crónica continua na parte II)