Crónica de uma Backpacker no Japão – Parte III (fim)

Adriana Correia

Bisturi Cronista, Autora do Blog Insiders of the World


A boleia para Tóquio demorou outra meia hora a ser conseguida, a uns duzentos metros antes das portagens que ficavam bem fora da cidade. Uns belos quatro ou cinco quilómetros foram caminhados com as minhas duas mochilas e com um tempo incrível, em que o sol que batia na minha cara contribuía ainda mais para a atitude positiva de sorrir com um papel nas mãos e esperança no coração de conseguir alguém que parasse. É incrível a felicidade sentida assim que um carro abranda e tenta saber para onde vou, no sentido de me ajudar a alcançar o meu objetivo. Aquele sentimento de missão cumprida começa a percorrer-me o corpo e, especialmente à chegada, não há como descrever o quão eu agradeço por me terem ajudado.

A chegada a Tóquio foi estranha. Estava logo à espera de arranha-céus , multidões, confusão, imensas lojas e restaurantes e não foi nada disso que eu vi. A boleia levou-nos a uma estação de metro que depois apanharíamos para ir a uma das zonas mais conhecidas que é Shibuya e a mais movimentada passadeira (ou passadeiras) do mundo bem como a famosa estátua do Hachiko, o cão fiel que esperou pelo seu dono perto daquela estação de comboio. Nos outros dias foi andar dezenas de quilómetros como é hábito e conhecer cada uma das zonas, perdendo-nos volta e meia, aqui e ali, entre ruas e bairros com nomes indecifráveis.

Já notaram que falo no plural e não é por acaso. Tive uma companhia de viagens inesperada mas que fez com que tudo fizesse mais sentido, interessante e divertido. Penso ter sido sobretudo nesta viagem que descobri que podemos ter mais do que uma alma gémea. Eu sei que isto é assustador para imensa gente mas creio que não pode ser mais verdade, uma vez que tens muitas pessoas compatíveis contigo neste mundo, ainda que não saibas que elas existam.

Em poucas palavras posso afirmar que Tóquio foi do caraças! Tem uma atmosfera fantástica e, mesmo não sendo grande fã de cidades, esta conseguiu conquistar-me e convencer-me a voltar eventualmente um dia. Tóquio tem a capacidade de ter várias personalidades dependendo da área que se visite. É possível sentir vibes completamente diferentes num mesmo dia e isso para mim é simplesmente fantástico e ao meu gosto! Claro que não me podia despedir do Japão sem visitar os principais parques, shrines, templos e as comidas mais especiais desta capital e, por isso, andei e comi até à exaustão. Sim, eu chegava a casa do host do couchsurfing morta de cansaço e pouca era a minha energia após o banho.

Ele era estudante de mestrado de Economia e tinha tirado um ano em Londres como intercâmbio o ano passado. Após esta experiência decidiu criar o seu perfil no couchsurfing e continuar a ter mais relações com estrangeiros. Voltou a explicar que estes intercâmbios é o que muitos estudantes fazem para fugir da realidade e pressões japonesas. Isto recorda-vos algo da parte 2?

Apesar de só ter passado três noites antes do meu voo para Shenzhen onde descobriria, com o transit visa de vinte e quatro horas, o máximo desta cidade enorme, estar com este jovem quase da minha idade foi revelador. Mais uma vez, reflecti sobre a sorte de não ter sentido esta  pressão para ser boa na escola, não neste exagero generalizado doentio. Esta ideia e objetivo de alcançar uma perfeição que não existe no Japão deixou-me sempre perplexa e sem saber bem o que dizer.

Digo a mim mesma frequentemente para me permitir querer viver comigo própria e amar-me até aos meus pulmões não conseguirem respirar mais o oxigénio que a vida me dá. Dormimos quase na queda daquilo que somos, perdendo aos poucos aquilo que podemos ser para aquilo que os outros querem que sejamos. Parece uma casa de espelhos em que tentamos ser iguais aos demais, sem forças suficientes neste mundo para que alguém apareça e diga basta; mas também não quero ser eu.

De algum modo mudou a vossa perspetiva sobre a vida que vos rodeia? Crescemos por vezes com amarras que nos custam a descartar e vamos vivendo sobrevivendo a uma das versões. Tóquio fez-me reflectir sobre estas coisas mais profundas, com a sua personalidade tão forte, e atmosfera ainda mais especial.

Agora regresso a casa, mas não por muito tempo. Acompanham-me na próxima, certo? 🙂