Empurrar é bater?

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora

+ Artigo: https://audiencia.pt/empurrar-e-bater/


Mafalda G. Moutinho: — era para nem publicar este texto em primeira instância, era para nem o soltar à web, escrevi-o primeiro para mim como escrevo tantos outros na “meditação escrita” que gosto de fazer mas a história que nos invadiu hoje os corações fez com que ainda o quisesse fazer.
A Inês tinha 32 anos, era Médica (estudava Dermatologia) , e ainda trabalhava com Audiovisuais (incrivelmente e de forma surreal alguém se lembrou de escrever na caixa de comentário de um jornal, como é que ela tinha tempo para fazer filmes…).

A Inês era portanto o óbvio: um Mulherão, uma Máquina, que no meio disto tudo ainda desenhava produtos para a empresa que partilhava com a mãe. Mas apesar da vida da Inês ser um percurso de mérito tiraram-lhe a Vida, degulando-a. Um jovem rejeitado, não lidou bem com o fim da relação. Muito se fala de violência mas de uma vez por todas para além de se definirem penas pesadíssimas para estas situações há que voltar a educar desde pequeninos todos e todas, porque a rejeição faz parte da vida e é preciso saber lidar com ela bem como é necessário entender que o diálogo é o bem mais precioso entre seres humanos e no final de tudo deve ser usado “e abusado” para que se previnam problemas e tragédias escusadas.


Sim empurrar é uma agressão, aliás qualquer toque que invada o espaço do outro a par de uma situação e intenção menos amistosa é uma agressão, sendo o princípio da mesma quer ela tenha continuidade quer não.
Não é ao acaso que faço esta afirmação.
O grande problema que identifico na nossa sociedade neste contexto é a normalização da violência e a falta de noções básicas de convivência entre seres humanos, por essa razão as escolas devem educar contra a violência porque abrimos as portas da selva, fazendo muitos acreditar que podem fazer e obter o que pretendem.
Parece quase despropositado afirmar isto desta forma mas será que o é, numa sociedade que educa os seus filhos a obterem tudo o que pretendem sem saberem lidar com a rejeição?
Julgamos que esta é a melhor forma de lhes dar o melhor e de os proteger colmatando as ausências que tivemos na nossa infância mas que na realidade nos educaram ou deviam ter educado para a vida.
A rejeição é aliás uma das grandes causas da violência perante o outro e é necessário passar aos mais novos o conceito mais simples da vida: só tens que estar com quem te quer fazer feliz, com quem te deseja. Aos que decidem seguir outro caminho, por mais que nos custe ou achemos que não é a decisão mais certa, desejamos boa sorte.
Este ano gostei particularmente do dia de São Valentim em contexto social. Sempre achei este dia para além do óbvio um fenómeno de consumismo e hipocrisia, apesar de este ano até ter publicado uma carta de amor no livro “Três quartos de um amor” da Chiado.
É uma hipocrisia, porque para muitas mulheres e muitos homens, um dia de rosas, é em todos os outros dias, o inferno das agressões físicas e psicológicas.
Gostei de ver a quantidade de pessoas que saíram à rua em várias cidades para se manifestarem contra a violência doméstica em mulheres e o aumento grotesco do número de feminicídios a que temos assistido.
Dei por mim a pensar se estes homicídios sempre existiram em grande número, ou se hoje graças a toda esta campanha do género, os agressores estarão a encontrar uma forma de “chamar à atenção” e portanto estes crimes estão a aumentar.
Nós mulheres somos infelizmente fisicamente vulneráveis o que nos torna um alvo fácil porque não temos a força física de um homem por mais que nos esforcemos mas atenção vulnerabilidade não significa submissão.
Sou portanto a favor que saiamos à rua para protestar por legislação mais forte, que proteja não apenas as mulheres da violência e dos abusos, mas os homens, os idosos e as crianças dando penas mais duras aos seus agressores, algo que faz falta no nosso país no caminho de uma possível prevenção destes crimes.
Em todo este contexto devo dizer que a violência doméstica contra os homens me preocupa e muito, porque estes escondem-se ainda mais na vergonha e a vergonha consegue ser tão ou mais poderosa que o medo frequente na vulnerabilidade feminina.
Outra preocupação real dos nossos dias é a perseguição digital, e é bom ver que os nossos magistrados estão a especializar-se nos vários formatos de cibercrime porque estes crimes estão efectivamente a aumentar e são crimes bem presentes não apenas na esfera empresarial, mas também na civil.
Estes agressores passivos são provavelmente uma das estirpes mais perigosas e mais difíceis de identificar. São gente que invade o outro, deturpa e difama, sempre com uma capa cobarde.
E agora volto ao início, um empurrão numa discussão mais acesa é uma agressão?
Várias pessoas disseram-me que não, aliás só uma me disse aquilo que o meu coração acha e a minha razão diz que sim: qualquer toque é uma agressão. Naquele dia uma grande parte de mim esteve num sítio qualquer cuja única certeza que tenho é que nunca mais lá vou voltar.
À mínima flutuação emocional fora de tom que pressinto num ambiente, retiro-me do mesmo.
Costumo dizer que quem não discute não tem uma relação e que quem não discute é de plástico. Mas discutir não significa ofender, agredir, mas sim dialogar e evoluir no fundo expiar os problemas da relação para os resolver ou as discórdias.
E por fim falemos do bicho papão que se esconde no significado de todas as palavras sobre este tema: o medo. 

O lugar do medo neste contexto de violência doméstica é debaixo da cama, substituindo-o pelos problemas que numa ordem inversa mergulhamos no seu lugar, porque não os sabemos resolver, ou porque temos medo das consequências da sua resolução ou que ninguém nos ajude.

Se fizermos esta troca acredita em mim, os dias do futuro, são os dias dos caminhos da felicidade.