Falsos Moralismos

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Cronista 


A polémica estalou, marcou-se a agenda mediática, relegando para segundo plano a substituição do treinador do Benfica ou a recente tomada de posse do presidente do Brasil. O tema centra-se no programa “Você na TV” cuja rúbrica diga de sua (In) justiça foi suspensa.

Em causa estão dois contextos: a presença de um líder de uma organização de extrema-direita (condenado por vários crimes de ódio e homicídio, por exemplo) e a pergunta colocada a público “Faz falta um novo Salazar?”.

A sempre defensável e importante, como garante da democracia, Liberdade de Expressão colide e contraria, de facto, com o argumento usado pela TVI. Ao dar voz e palco a uma ideologia e princípios programáticos que colocam em causa os mais elementares e fundamentais direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e de um Estado de Direito contraria o argumento de defesa apresentado: o respeito pela “dignidade da pessoa humana e os direitos, liberdades e garantias fundamentais, não incitando ao ódio racial, religioso, político ou gerado pela cor, origem étnica ou nacional, pelo sexo, pela orientação sexual ou pela deficiência”. Contrariamente, o que aconteceu foi um momento, pelo menos, de promoção do ‘ódio racial, religioso, político ou gerado pela cor, origem étnica ou nacional, pelo sexo, pela orientação sexual ou pela deficiência’. Foi uma criticável opção editorial da rubrica do programa.
Além disso, a “sondagem” apresentada é, igualmente, lamentável. Felizmente, pelo resultado, são muito poucos os que gostariam de ver Portugal regressar a um patamar dispensável de pobreza, analfabetismo, isolamento internacional, de ausência de liberdade e de forte censura. Aliás, é incompreensível que a TVI tenha colocado a questão quando os seus directores bem sabem que, num hipotético regresso ao período pré 25 Abril, o canal de Queluz, muito provavelmente, nem existiria.
Estes são os factos e a avaliação crítica de quem até é um defensor das Liberdades, um constante “Je suis Charlie”. Mas a verdade é que não deixa de ser criticável a opção tomada pela TVI.

Há ainda o outro lado da polémica: o “rasgar” das vestes de uma determinada esquerda que se acha, erradamente, a guardiã moral dos bons costumes e das liberdades. Tretas.

Antes dessa análise, importa ainda dar nota da triste posição do Sindicato dos Jornalistas sobre a matéria. O programa é de “entretenimento”, sem carácter informativo e sem a presença de qualquer jornalista. Apesar do contraditório a que o convidado foi sujeito pelo apresentador Manuel Luís Goucha que, em alguns casos, superou muitos jornalistas “encartados”. Era escusada a posição do Sindicato dos Jornalistas que mais não serviu para projectar e dar eco ao programa em causa.
Ainda a propósito, o envolvimento de um ministro do actual Governo, foi um enorme tiro no pé. Logo este Governo que ainda bem recentemente não teve a coragem política para, publicamente, criticar e exigir que a organização da “Web Summit” excluísse dos seus painéis a líder da extrema-direita francesa, Marie Le Pen. E quando há telhados de vidro convém ter cuidado com as “pedras” que se atiram ao “vizinho”.

Mas a outra faceta é mais deplorável. O “rasgar das vestes” das vozes da esquerda, da estrema-esquerda, neste contexto, é algo que agonia, que dá a volta ao estômago.
E logo uma dita esquerda que ainda bem recentemente, em 2015, se regozijou com a coligação governamental do Primeiro-ministro Tsipras entre o Syriza e os conservadores “Gregos Independentes” estruturados na Nova Democracia.
Ou ainda a “outra” esquerda que quando lhe convém esquece-se tão facilmente da Coreia do Norte ou da Venezuela.
E já para não falarmos das FP25, ainda presentes na memória de muitos dos portugueses.
Tudo é mau quando não nos agrada… quando a “pimenta  no dito cujo dos outros é refresco”. É este balofo populismo que faz crescer ou potencia estes extremismos que, infelizmente, vão povoando essa Europa fora (por exemplo, na Roménia que iniciou, no primeiro dia deste ano, a liderança do Conselho da União Europeia).
Lamenta-se que a tão ideologicamente moralista esquerda portuguesa não perceba que, apesar de tudo, é preferível debater, combater e criticar, os extremismos (venham eles de onde vierem… são iguais, na prática) no espaço público da democracia, do que deixar que proliferem no caos e anarquia das redes sociais, com milhares e milhares de “olhares”.

Parafraseando o grande filósofo português contemporâneo, Prof. Agostinho Silva, que afirmava a Liberdade como a mais importante qualidade do ser humano…

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