Fugir com o rabo à Seringa!

 

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Embaixador/Cronista


Fugir com o rabo à Seringa!!

… Ou como ainda acrescenta a sabedoria popular: “quem tem cu tem medo”.
A verdade é que desde o início deste processo mais complexo e polémico que envolve a Catalunha não me tem sido fácil tomar uma posição consistente e coerente, mais do que clara até. Mesmo que não me oponha à vontade popular da legitimidade da autodeterminação dos povos e das comunidades.
Há um determinismo histórico e secular na vontade independentista catalã que não é linear compreender.
Há um histórico de incompatibilidade política entre o PP e a Catalunha, com episódios recentemente conhecidos (por exemplo entre 2012 e 2014).
Houve uma deturpação e usurpação da vontade popular que não sustentava por si só a posição assumida pela Generalitat na declaração de independência e em todo o processo dos últimos dias, onde se incluiu a questão surreal do referendo.
Houve uma evidente precipitação e errada avaliação política, para além de uma questionável e criticável acção governativa de Madrid, que, desde o início, fazia antever uma reacção mais massiva dos catalães e uma óbvia vitimização da causa. O feitiço virar-se-ia contra o feiticeiro.
O recurso constante e exclusivo à argumentação do ataque à Constituição é fraco e não colhe porque, como é mais que óbvio, qualquer rotura significa um confronto com a normalidade, mesmo que legalista.
Depois veio o descalabro, de parte a parte, de Madrid e Barcelona de gerirem o confronto político e social em que se deixaram envolver, mais pela emoção do que pela razão.
Há ainda muitas histórias por contar neste processo e que foram deixadas à margem da realidade: a expressão minoritária do referendo; a posição independentista do parlamento sem a presença da oposição; as constantes manifestações expressivas e significativas de catalães que preferem continuar a sua ligação ao Reino.
Ficou igualmente por explicar aos catalães as consequências práticas da decisão da Generalitat de proclamar a independência unilateralmente, sem sustentação significativa popular: a relação com a União Europeia e a capacidade de “sobrevivência” como Estado e Nação à semelhança de uma Suíça ou uma Noruega; a sua própria relação com o resto de Espanha; o facto de serem a região autónoma economicamente mais desenvolvida e rica de Espanha (indústria, turismo, cultura, etc.) tal não significa que num futuro separatista e independentista a realidade continue a mesma; entre outros.
Mas a realidade hoje é que a Catalunha seguiu em frente, lutou (bem ou mal) até ao fim neste processo e, contra todos os receios e algumas previsões, declarou-se Independente do Reino de Espanha, de forma unilateral e face a todas as pressões. Os Catalães (das províncias de Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona) disserem Sí à nova Nação da Catalunha: a República da Catalunya.
Só que o desfecho de perfeita euforia, de festa e de lágrimas de alegria que invadiram as ruas da Catalunha e acompanharam tanto arriar das bandeiras de Espanha deixando hasteadas as próprias Senyeras, rapidamente se transformam em apreensão, sentimento de abandono e isolamento, de incompreensão. Aquele que era o rosto de toda esta luta, de toda a vontade popular independentista, do confronto político directo com Madrid e Mariano Rajoy, tinha fugido para a Bélgica deixando o povo à sua mercê e sem liderança.
De forma completamente incompreensível e, para milhares de catalães, condenável.
As consequências deste processo há muito eram esperadas e, diga-se claramente, publicamente anunciadas e avançadas por Madrid. Na hora em que os catalães que lutam por uma Catalunya lliure mais precisam de um rosto como referência na sua luta é difícil aceitar, desculpar e compreender que o seu líder político, que o seu “comandante”, abandone o seu povo e as suas “tropas”, só para se salvar a si mesmo e fugir às responsabilidades.
Mas ainda… politicamente é um desastre total. Mesmo que sujeito à justiça e a eventual incriminação judicial (algo que mesmo fora da Catalunha não seria cristalino que fosse isento de críticas ao Governo de Mariano Rajoy) a sua prisão seria relativamente efémera e serviria como martirização e vitimização da causa independentista.
O que resta desta fuga de Carles Puigdemont para a Bélgica é a sensação generalizada dos catalães que tudo foi perdido, tudo foi em vão, que tudo não passou de uma farsa política egocêntrica incompreensível.