Indignado, logo censuro!

Luís Nunes dos Santos

Bisturi Cronista


As opiniões dos indivíduos que compõem a sociedade é a maior riqueza que possuímos, é desta fruição de opiniões que conseguimos o tão desejado progresso civil e é por isso que não existe liberdade efectiva sem a livre expressão.
A defesa activa da liberdade é missão de todos os indivíduos, todos a devem defender sob pena de que no futuro esta, nos seja castrada por uma espécie de corrente de delito de opinião. O delito de opinião como punição por emissão de opinião é o primeiro sintoma da doença civilizacional da sociedade.
O exercício desta nossa humana forma de emitir e expressar opiniões é condicionado pelo ambiente que nos envolve, bem como pela nossa idade e experiência de vida mas é no respeito dessas mesmas opiniões que encontramos a tolerância que deve imperar no espaço público em geral.
Porque tolerante é aquele que vê nas múltiplas diferenças entre indivíduos um motivo bastante de concórdia. Quando digo concórdia não advogo acabar com o debate e com o esgrimir de ideias e argumentos porque estes são necessários à liberdade e ao evoluir dos ideais e pensamentos do homem, mas advogo sim o respeito, o bom senso e o equilíbrio entre os vários pontos de vista.
Já Jonh Stuart Miil dizia: “Se toda a humanidade menos um fosse da mesma opinião, e apenas um indivíduo fosse de opinião contrária, a humanidade não teria maior direito de silenciar essa pessoa do que esta o teria, se pudesse, de silenciar a humanidade.”
Esta frase é o corolário incontestável do que deve ser a tolerância entre os pontos de vista opinatórios de cada um que os emite.
Na nossa praça pública lemos inúmeros artigos de opinião, uns concordamos, outros nem tanto, alguns então discordamos a 100% no entanto todos são validos à sua maneira, mais que não seja, são um monumento aos anos em que não se podia emitir opiniões que não fossem enquadradas numa linha previamente definida pelo Estado civil e eclesiástico.
Ora de vez em quando e dependente dos quadrantes do ponto de vista politico existe quem escreve aberrações, talvez até alguns excessos de linguagem, generalizações e até ataques pessoais, essas pessoas que usam o seu espaço público para esse exercício não devem ser censuradas, nem castigadas, uma vez que o comum entende que aquela opinião é reprovável e o único dano posterior deve ser a reputação do autor ficar beliscada.
É muito fácil apontar o dedo, mais fácil ainda é fazer queixa, o difícil é argumentar na base pacifica, pensava eu que longe ia a justiça do pelourinho público onde todos iam assistir à desonra do justiçado.
Mas longe devia estar mesmo esses pensamentos totalitários de calar o próximo porque não se concorda com ele.
É sempre desta forma que a paz é violada, e é também este o argumento, se é possível chamar de argumento, que leva à quebra da boa democracia.
De vez em quando sentimos os ventos da verdade única imposta, onde só existe direito a ter a opinião de quem está acima, onde os gostos de uns se sobrepõem aos demais, onde a opinião divergente é crime e onde a livre acção de um individuo é boicotada.
Nós como um todo de indivíduos que se regem pelas leis do livre arbítrio não podemos deixar que isso aconteça.
A liberdade de gostar de touradas ou não gostar, a liberdade de ser de direita ou de esquerda, de votar no partido x ou y, de ser homossexual ou heterossexual, de caçar ou não caçar, de ser católico, muçulmano ou de outro credo, etc… deve ser sempre defendida com tolerância, compreensão e compaixão entre todos.
Existem correntes de pensamento que querem atentar contra a nossa forma de viver, contra as nossas culturas, contra os nossos costumes e hábitos, querem impor o tal homem novo, mas não entendem que existe espaço para tudo e para todos, ninguém tem que ser coartado nas suas liberdades, nem ninguém deve ser “guetizado” nem rotulado.
É errado quanto a mim generalizar em guetos ideológicos, os homens e as mulheres, os brancos e os negros e as “raças” em geral, somos todos seres humanos, a cor da pele, o sexo, a idade não nos pode classificar. Cada um de nós tem todas as potencialidades da humanidade, todos temos defeitos e todos temos valores.
A constituição da República Portuguesa diz o seguinte:
Artigo 13.º – (Princípio da igualdade)

       1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 
       2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.

Este deve ser o princípio a seguir!
George Washington disse uma vez acerca do condicionamento da liberdade: “Quando a liberdade de expressão nos é tirada, logo poderemos ser levados, como ovelhas, mudos e silenciosos, para o abate.”
É por isso que o livre expressar é importante, a sociedade é composta por incontáveis indivíduos, esses são no seu limite máximo a razão da existência do Estado que se quer cada vez mais aberto, mais tolerante, mais amigo da iniciativa dos indivíduos que o compõem e acima de tudo onde o usufruto das plenas liberdade seja de facto uma verdade.
Chega de purgas e “queimas” na praça pública por delito de opinião, se se sentiu indignado use do argumento e não da censura.

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