Não é Eleitoralismo

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Embaixador/Cronista


É bem pior…. é Populismo.

O primeiro-ministro, na rentrée política do PS, em Caminha, afirmou que não “assinará” um Orçamento do Estado para 2019 eleitoralista, a bem da sustentabilidade financeira do país.

Era, apesar dos riscos, bem melhor que assim fosse, porque, no mesmo discurso, António Costa deixou antever um OE2019 significativamente populista para o Governo se afastar da pressão do PCP e BE e conquistar uma maioria tão desejada e sonhada pelos socialistas (mesmo que em “surdina”).

Uma das afirmações mais expressivas desse populismo foi a que António Costa projectou como medida para a promoção do regresso dos muitos e muitos emigrantes que nos últimos anos abandonaram (uns forçados, outros por opção própria) o país: “50% de desconto de IRS e deduções em deslocação e habitação” aos emigrantes (nomeadamente os muitos jovens qualificados que saíram de Portugal) que emigraram entre 2011 e 2015 (curioso o período da Troika – nada acontece por acaso – como se não houvesse emigração em 2016) e que regressem nos anos de 2019 e 2020.

O que o populismo tem de mais perverso, mais que qualquer eleitoralismo, é desvirtuar a realidade e potenciar a demagogia e o engano.

Não foi, obviamente, a carga fiscal que fez com que milhares de portugueses abandonassem o país. E não será, claramente, a mesma carga fiscal (ou o seu alívio) que fará com que os mesmos, ou muitos deles, regressem.

Em 2017 a Fundação AEP (Associação Empresarial de Portugal) publicava o resultado de um inquérito aos jovens portugueses que optaram por emigrar. Destes, pouco mais de 40% afirmou que pensariam, um dia, regressar a Portugal e apenas cerca de 9% tinha mesmo planos para o fazer a curto prazo.

Oportunidades profissionais (emprego), atractivos científicos e culturais, valorização profissional e salarial, bem como a atractividade de uma Europa sem fronteiras e de um mundo globalizado, são razões muito mais válidas que o incentivo fiscal e que faz com que os emigrantes, nomeadamente os mais jovens, se fixem noutras paragens e se deixem seduzir por realidades sociais, económicas e culturais mais atractivas e promissoras.

O ministro Mário Centeno pode ficar descansado que não será por este anunciado populismo de António Costa que as contas públicas sofrerão qualquer abalo… nem mesmo um arranhãozito.

E não será por aqui que Portugal assistirá ao regresso de alguns dos “seus”.