O Senado e o Povo Português

Luís Nunes dos Santos

Bisturi Cronista


O ser humano sempre teve curiosidade em conhecer a sua história, há uma necessidade intrínseca em tentar explicar as origens do mundo e com isso mobilizar a memória e a escrita através da simples acção de criar uma cronologia capaz de nos satisfazer essa curiosidade.

É assim que nascem os diversos mitos fundadores de cidades e nações, que se misturam com os factos credíveis que temos, a racionalidade do facto e criatividade do mito são fruto da natureza humana de tentar explicar tudo.

A história, a sua criação e comparação com as várias fontes tornou-se assim uma das mais importantes fontes do saber, existem ciências que tentam simplificar o presente, enquanto outras tentam projetar os possíveis futuros, no entanto, a ciência histórica analisa os conhecimentos de quem já fomos e tenta criar uma ponte para o que somos hoje.

É importante saber os factos históricos, os mitos e as estórias de um território, digo de um território porque nele percorreram povos diferentes, culturas diferentes, políticas e formas de governos contraditórias consoante o contexto histórico.

Posto esta introdução que me vi obrigado a fazer, uma vez que, recentemente chegou ao conhecimento público que está a ser planeado para o próximo ano lectivo tirar horas semanais à disciplina de história nas escolas.

Vou passar então aos factos históricos que são o motivo directo daquilo que pretendo transmitir.
Roma nem sempre foi governada por imperadores, nem teve sempre a dimensão imperial que está no nosso consciente. Roma antes do Império dos Césares, e antes da República dos Cônsules e Magistrados, foi na sua fundação uma espécie de monarquia porque tinha um Rei.

O mito de Roma diz-nos, com alguns factos à mistura, que tiveram governo sete reis em Roma, uns latinos/sabinos e os últimos três etruscos, é sobre a queda do último rei, Tarquínio “O soberbo” que vos vou falar. Para me auxiliar vou buscar Tito Lívio que no seu livro Ad Urbe Condita (desde a fundação da cidade) fala sobre esta transição da monarquia da cidade de Roma para a República.
Fugindo aos juízos de valor da personagem do Rei Tarquínio “O soberbo”, que um dia se sentou no trono e o clamou para si, sabe-se que este desrespeitou Roma e os patrícios, o que despoletou toda uma revolta da elite de Roma o que provocou a sua expulsão da cidade.

Quem estava a chefiar a revolta patrícia em Roma era Junius Brutus que teve um papel importante e fundamental durante e após a revolução. Ele foi um dos pensadores e fundadores da nova forma de governação que consistia em eleger dois cônsules para magistraturas de um ano e é assim que se dá  início em 509 a.c. à forma de governo republicano de Roma e que irá durar até 29 a.c. Tarquínio “O soberbo” ainda consegue juntar alguns apoios nas cidades aos redor de Roma e encontra-se em batalha com Junius Brutus onde vem a ser derrotado de vez.

Entre os partidários do rei deposto estavam os dois filhos mais velhos do Cônsul Brutus, que conspiravam contra a República Romana, mas são descobertos e com a queda do rei, cabia aos cônsules proteger e fazer valer a lei romana. Pelo crime de Majestatis, os filhos do cônsul são condenados à morte pelo próprio pai que segundo o mito assistiu sem pestanejar.

Floro, um historiador que resumiu a “História” de Tito Lívio, refere que “(Brutus) arrastou os seus dois filhos até ao fórum, onde ordenou o golpe e a execução com o machado perante a multidão, de modo que ficava verdadeiramente patente que, como pai da pátria, tinha adoptado o povo romano como seu filho”.

A moral desta história leva-nos directamente à ética republicana, porque ao meter a Pátria à frente dos interesses pessoais e da sua própria família Junius Brutus tornou-se o modelo Republicano Romano e que se estendeu até aos dias de hoje. Como podem ver o conhecimento da história pode enriquecer muito a nossa visão sobre o passado e aumentar a consciência de muitas acções do presente.

Na nossa República governo atrás de governo independentemente das cores partidárias no arco da governação existe quem não respeita o princípio da ética republicana fundada por Junius Brutus à 2500 anos, e mete a família e os seus familiares no governo e em lugares públicos de destaque no Estado Português.

Se a Rés Publica é a “coisa do povo” então estes comportamentos são reprováveis.
Parece que a ética republicana só serve quando dá jeito e não é para todos.
Stuar Mill dizia na sua obra A liberdade:

“No final de contas, o valor de um Estado é o valor dos indivíduos que o compõem.” Esta frase devia sintetizar a forma de escolha para a nomeação dos cargos governamentais e das assessorias várias na máquina do Estado.” 

Quem isto não entende, pode meter em causa no fim de contas o governo do Estado, ao meter em causa o serviço público com um fim único, deixando para trás todo um conjunto de cidadãos que são válidos ao país, o mérito de cada um deve prevalecer em relação ao parentesco e aos amiguismos.

Sendo que os partidos políticos servem somente a Pátria e não se devem nunca servir dela.


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