Odisseia na Tailândia| Insiders of the World

Adriana Correia

Bisturi Cronista, Autora de “Insiders of the World”


Mal cheguei a Banguecoque sabia que queria ir directa para a Koh Tao, mesmo que isso significasse quase um dia em viagem. Passei o dia a deambular entre templos e a ir a um outro mercado de rua até parar e fazer tempo em Kao San Road onde o autocarro partiria para Chumpon às 18 horas. Depois do ferry por volta das 7, chegaria a Koh Tao já passava das 9 horas. Não sentia fome nem sede e só queria encontrar o meu Hostel para aquela primeira noite. Tenho o hábito de só marcar a primeira, uma vez que gosto de sentir a vibe do sítio e ter a certeza se gosto ou não das condições do quarto. Raramente corre mal e prefiro ter a liberdade de ir planeando à medida que a viagem vai acontecendo.

Tinha viajado fazia quase vinte e quatro horas desde Lisboa e só queria descansar. Mal cheguei ao aeroporto fui quase a correr para a wc para trocar de roupa, de uma invernal para uma bem fresquinha, tal como eu gosto e tal como a Tailândia tão bem me habitua.

Demorei um pouco até lá chegar, não só porque ficava longe do porto bem como tentei ajudar um amigo de longa data que decidiu meio “seguir-me” para aquela ilha a procurar um hostel para si a um preço razoável. Para além disso, o maps.me não me ajudou particularmente e mandou-me ir em direção para o meio da selva. Mal vi a primeira rapariga a descer a pé a rua que subia, decidi parar e perguntar-lhe com um sorriso se me podia ajudar. Ela era estrangeira e havia mais possibilidades de ela conseguir ajudar-me mas, não sabendo, convidou-me para almoçar com ela e talvez o senhor que lhe servia o pad Thai e o meu shake de banana no restaurante podia saber onde eu tinha marcado aquela noite. Também não conseguindo ajudar-me, decidi ligar para o alojamento e pedir que me viessem buscar e assim foi. Comecei logo a adorar toda a disponibilidade que aquela ilha me estava a dar na minha primeira hora nela.

Estava super cansada e só pensava em tomar banho e deitar-me um pouco após pousar a minha mochila de dez quilos e a outra pequena de uns três. E foi exatamente o que eu fiz. No meu dormitório estavam duas raparigas e três rapazes, todos eles a descansar nas suas camas. Achei logo estranho porque associo ilha a praia e praia a mar e mar a banhos de sol e água salgada e dormir enquanto se está neste paraíso não entra no meu vocabulário mas respeito quem o queira fazer.

O banho soube-me pela vida e consegui sentir o suor quente a descer-me pela cara e pelo corpo enquanto a água fria daquele chuveiro simples percorria cada centímetro da minha pele. Depois deste momento a sós, recebi uma mensagem da Alex que conhecera antes a convidar-me para ir fazer snorkeling, ao mesmo tempo que entendia que eu estivesse demasiado cansada para alinhar numa actividade que podia ser tão exigente. Acabei por dormir uma pequena sesta de trinta minutos e tentar descobrir um pouco da ilha depois. Entretanto recebo uma mensagem do Aldo, um algarvio com passaporte francês e suíço, com mais dois amigos que viajavam pela Tailândia também e estavam naquela mesma ilha. Acabámos por sair de mota juntos e conhecer a freedom beach. Depois de uma agradável conversa, fomos beber um shake, jantar bem como jogar voleibol e ir a um bar com o resto da malta.

Foi incrível como logo na minha primeira noite conheci tanta gente boa e voltei a sentir uma felicidade espontânea e livre. Cheguei tarde e só não foi mais porque estava de facto muito cansada da viagem e de todo aquele jet lag.

A manhã seguinte estava agendada para dar uma volta pelas escolas de mergulho e escolher aquela que melhor se adequava àquilo que eu pretendia. Já tinha uma preferência e queria ir lá tirar a prova dos nove. Curiosamente foi a mesma em que a Alex trabalhava. Ainda se lembram dela, certo? Naquela tarde acabei por fazer a inscrição e logo ali  começámos a parte académica com o respectivo livro do PADI para estudar.  O dia seguinte seria dedicado aos primeiros mergulhos em águas não muito profundas para que pudéssemos praticar vários exercícios, tais como a remoção da máscara, remoção do BCD ou do tanque de oxigénio, entre outros. Mango Bay e Tanote Bay foram os sítios escolhidos.

Todos os dias do curso eram dedicados a alguma parte académica e a mergulho depois. Acordar bem cedo fazia parte da rotina e, curiosamente, para mim que adora ficar na cama até tarde, esta realidade não me custava tanto como eu estava à espera que custasse. Era com muita tranquilidade que acordava às sete ou cinco e meia da manhã para me despachar para ir ora para a escola ora para o pier para apanhar o barco, enquanto todos os outros no dormitório ficavam a dormir, para concretizar um objetivo de há algum tempo. Todos os dias tínhamos um local de mergulho diferente e isso foi incrível. Consegui explorar um pouco de tudo no que toca aos melhores locais de mergulho da ilha.

Dois dias depois do mergulho fui fazer snorkeling para um local a hora ou hora e meia a pé de onde eu ficava normalmente hospedada por ser mais barato (4€ por noite normalmente). Nesse primeiro dia queria apenas ir para a praia, sem grandes ideias de snorkeling, mas a vida quis que eu conhecesse um francês que veio a tornar-se meu amigo, que me emprestaria máscara e me mostrava a shark bay à sua maneira. No dia seguinte convidaria-me de novo e acabou por ser mais incrível do que a primeira vez, mesmo que em ambas tenha visto pela primeira vez várias tartarugas e vários tubarões – black tip reef sharks. Vários foram os momentos em que ele me convidou para sair, jantar ou ver um filme até. Acabei por aceitar um jantar no melhor japonês da ilha e de facto não desiludiu!

Percorri diferentes hostel e bungalows durante o meu tempo em Koh Tao e em todos eles me senti em casa, talvez porque aquela ilha me convidou para me sentir assim. E fazer mergulho ali fez ainda mais sentido. Nunca pensei que me pudesse sentir assim mas ainda bem que assim foi pois fez-me uma jovem mulher muito feliz. Penso que agradeci todos os dias por estar a conseguir viver toda aquela experiência. Não só pelo mergulho mas todas as pessoas que conheci, por todas as saídas à noite, por todos os sunset incríveis à frente do bar da escola e por todas as amizades que acabaram por se traçar de forma tão bonita em tão pouco tempo.

Logo nesse mesmo primeiro dia, enquanto saíamos todos da praia para ir jantar a um dos melhores restaurantes da ilha (que só podiam ter sido os tugas a mostrar-me), ouvi português de um casal e a sua filha e, desde logo, parámos para conversar imenso e trocar WhatsApp. E a filha acabou por ser das melhores pessoas, bem como das mais divertidas e espírito livre, que tive a oportunidade e felicidade de conhecer na minha vida. Os seus pais iam viajar na Tailândia durante quatro meses com passagens também pelo Camboja e Singapura. O seu pai tem 80 anos e a sua mãe apesar de um pouco mais nova, ambos apresentavam ter um espírito incrível que fazia inveja a muitos jovens da minha idade. Ao conversar com eles só reflectia sobre como não devemos esperar tanto tempo para começar a riscar da nossa bucket list aquilo que gostávamos de fazer na e com a nossa vida.

Todos os dias eu tinha algum plano para depois do curso de mergulho, nunca tendo grandes momentos mortos. As pessoas sorriem para ti nas ruas desta ilha e dizem um olá vazio de segundas intenções, só porque estão tão contentes por estar ali como eu e transmitem isso com a sua linguagem verbal e não verbal. Aqui, assisti a vários  actos de bondade e um deles estou prestes a contar-vos:

Estava num dos mais populares bares da ilha quando conheci um canadiano com avós portugueses e que acabou por me levar de pé descalço (e com pontos no pé esquerdo) até ao meu Hostel às quatro da manhã, depois de uma noitada, sem pedir nada em troca, nem mesmo um contacto telefónico. Aqui, aproximaram-se pessoas para simplesmente falar comigo sobre a vida porque me consideraram minimamente interessante e espírito livre. É conhecer mulheres espetaculares que se revelam uma fonte de inspiração, apesar de não acreditarem mais no sexo oposto e em relações, quando tu ainda és ingénua e pretendes acreditar que nada está perdido e que algo de positivo o universo está a guardar para ti a este nível.

Ainda no barco, após terminar o meu open water e saber que iria ter oficialmente o certificado, chorei. Chorei de orgulho, felicidade e com o sentimento de objetivo cumprido. E agradeci. Agradeci ao universo e à vida e com quem partilhei aquela conquista. No dia seguinte estaria a fazer duas fun dives e depois a iniciar a parte académica do advanced (para conseguir ir até aos 40 metros) com a Liana que, novamente, foi concluída com muito sucesso. Numa semana tornei-me algo com a qual nunca pensaria sentir-me tão bem a fazer. No final, não só o meu croata como outras pessoas da escola disseram-me que eu me tinha safado muito bem, com um controlo de respiração muito bom e que devia aproveitar para mergulhar muito, e talvez também avançar mais nestas etapas que o mergulho te pode proporcionar. Sabem aquela felicidade que te consegue quase saltar do peito? Essa mesma. Foi a que senti.

Para quem está interessado em fazer mergulho em Koh Tao, existem inúmeras escolas e opções por onde escolher. O melhor é ir pela vossa vibe tal como eu fiz. Se tiverem interessados em ter as lições em espanhol ou em francês, existem escolas especializadas nisso, se querem SSI ou PADI é outra opção que têm, se querem escolas grandes ou pequenas, se querem turmas grandes ou pequenas, se querem alojamento mais cuidado, tudo conta e tudo são opções e decisões pessoais. Eu paguei pelo open water e pelo advanced 19000 baths, o equivalente a 500€, sem alojamento incluído mas incluía refeições no barco, café, água e chá ao longo das aulas, bem acabar o primeiro nível num dos melhores spots a duas horas de distância de barco.

Cada dia naquela ilha foi dedicado a fazer algo especial. Desde nadar numa piscina infinita a ver o pôr do sol com outra ilha do outro lado, fazer um mergulho à noite e esperar pelo pôr do sol no barco, assistir a outros em diferentes praias, ou explorar cantos e recantos. Assim que me fui embora, após terminar o advanced e de ir à festa de despedida do Max onde dancei como se não houvesse amanhã, senti que teria de regressar ali. E regressei. Mas logo vos conto mais.

Este era o momento de ir para Koh Phangan primeiro. Seguem-me? 🙂