Opinião no Jornal Referência | A Vitória de Le Pen e as Gaffes da Web Summit

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora


Nós Portugueses, somos maus em muitas coisas, mas naquelas em que somos bons somos verdadeiramente únicos e inesquecíveis.

Os eventos de grande dimensão que temos abraçado nas últimas duas décadas, ainda que alguns tenham envolvido grandes desperdícios orçamentais como o Euro 2004 sempre colocaram Portugal num patamar acima daquilo que todos além fronteiras nos julgavam capazes de concretizar e organizar.

Beleza, inovação, originalidade, segurança, boa máquina logística e criatividade são sem dúvida características que têm moldado a forma como quem nos visita nos encara.

Deixámos de ser aquele país encostado à Espanha que fala castelhano cujas mulheres exibem um bigode de fazer inveja ao orgulhoso bigode da Frida Kahlo.

Passámos a existir na escala planetária, quanto mais não seja com um grande pó de ajuda de Cristiano Ronaldo, das nossas conquistas futebolísticas e agora mais recentemente com a ajuda da visibilidade de António Guterres na ONU para não falarmos na grande procura turística que alcançámos nos últimos anos.

Acredito que até os Americanos, cujas respostas nos testes de geografia são surreais, qualquer dia saibam reconhecer-nos (ou, se calhar, estarei a sonhar muito alto).

Web Summit foi boa para Portugal?

Acho que a Web Summit como evento tecnológico de referência foi excelente para uma vez mais mostrar ao mundo que Portugal e Lisboa estão na moda e são uma referência mundial no empreendedorismo porque, acima de tudo, é disto que tudo isto se trata: bancas de Startups a conviver com grandes empresas mostrando os seus gadgets, envolvendo o evento numa atmosfera de networking única. No entanto, as últimas duas gaffes fazem-me desejar dizer obrigada e até breve a este evento.

Não podemos esquecer a quantidade de dinheiro público que está injectado neste evento, para não falar na capacidade logística portuguesa, para, através das nossas mãos, organizarmos algo semelhante.

Não acho nada chocante, vermos o evento viajar para outra cidade…

Afinal de contas, António Costa como pai da “startupmania” em Lisboa criou uma atmosfera recheada de gente muito válida e capaz para promover este sector…

Com isto tudo, eu não me esqueci daquele jantar no Panteão Nacional que desrespeitou cada um e, ao mesmo tempo, todos os Portugueses.

Esta segunda gaffe que inundou os jornais e as redes sociais na última semana ultrapassou os limites do aceitável.  Neste momento, Portugal é visto além fronteiras como um país onde se oprimem opiniões e pior, a organização da Web Summit passou a imagem de que somos um país de “descerebrados”, ou seja, de gente que não pensa pela sua própria cabeça. Nós e todos aqueles que visitam o país para o evento.

Não acham que estando nós em pleno evento não temos a opção de nem sequer assistir à intervenção da Senhora Le Pen, ou, mesmo estando a assistir, acham que passaríamos a vestir e aplaudir um hipotético discurso xenófobo e de ódio, assim de ânimo leve só por lhe dar palco?

Digo hipotético porque na realidade ficamos sem saber o que a senhora viria dizer, uma vez que a Web Summit passou a ideia de que somos um povo que não suporta nem permite opiniões distintas das nossas.

Já dizia Stuart Mill: “Se toda a humanidade menos um fosse da mesma opinião, e apenas um indivíduo fosse de opinião contrária, a humanidade não teria maior direito de silenciar esta pessoa do que esta o teria, se pudesse, de silenciar toda a humanidade”.

O pitoresco e mais saloio de toda esta situação é a jogada de convite e desconvite, que eu espero, com algum humor à mistura, que tenha sido uma jogada tenebrosa de Marketing para a Web Summit vender mais bilhetes.

No meio de tudo isto, acho que o governo esteve bem ao distanciar-se democraticamente da questão.

Não vou mencionar a mesquinhez política que vestiu esta polémica toda por parte de algumas pessoas na nossa praça pública e que deu uma série de argumentos a Le Pen para nos vender a esquerda como sendo opressora.

Web Summit é um evento de inovação e tecnologia, sendo que quem paga bilhete não o paga seguramente para assistir a discursos políticos sejam eles de quem forem.

Espero que a organização abra os olhos e volte às origens das suas primeiras edições e ao verdadeiro conceito do evento nas edições futuras, ou seja sem se revestir desta chuva de escolhas de oradores políticos.

Admito que é inteligente e de bom tom ter como orador Carlos Moedas, que é o “money man” da Ciência e Tecnologia Europeia, para além de que é um político outsider, tem mais de ciência que de política e, sou sincera, já o ouvi por duas vezes e tem um discurso bastante interessante.

Espero muito sinceramente que a Web Summit,ao despedir-se de Lisboa, saiba compensar todas estas gaffes, afinal de contas, o investimento do dinheiro público tem mesmo que compensar, porque na sua pele está gravada a força, o sangue e o suor do trabalho de cada cidadão.


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