Opinião Pública | A Rússia de Putin

Bernardo Hille

Cronista do Bisturi Opinião Pública


A Rússia de Putin

Nos últimos anos temos visto uma escalada de tensões com este país. Esta escalada de tensões tem sido atribuída pelo Ocidente a uma política expansionista Russa de Vladimir Putin.
Contudo, creio que o tema seja muito mais complexo do que isso.
Este tema tem várias perspetivas necessárias à sua compreensão e a evitar erros que podem resultar em guerras desnecessárias e mortíferas para muitos. Qualquer guerra com a Rússia muito provavelmente envolveria o uso de armas nucleares , visto ser essa a política que o governo Russo diz prosseguir, dada a falta de recursos do Estado Russo quanto aos seus adversários.

Por falar em falta de recursos gostava de começar por ai. A Rússia é um país que não à muito tempo teve uma catástrofe geopolítica como assim Putin lhe chama.

Perdeu metade da sua população da URSS para novos estados, milhões emigraram, muitas indústrias ficaram em ruínas e que ficou reduzida a um PIB parecido com o da Itália, ou dos países do Benelux juntos. Se colocarem a Itália por cima do mapa da Rússia, não passa de um micro estado qualquer russo. Isto para não falar no atraso que esta sofre em relação à europa, em parte devido ao Regime Comunista.
Qual é o meu argumento com isto?

O meu argumento é que existem muitas pessoas que falam da Rússia como se fosse uma grande ameaça , com ambições expansionistas de dominar o leste europeu.
Putin nunca mostrou tomar decisões irracionais e dessa qualidade.
A Rússia não tem nem recursos nem capacidades para atingir qualquer dessas megalomanias, ou pelo menos tem tantos recursos como a Itália ou a Holanda, Luxemburgo e a Bélgica, acho que ninguém aqui estará com medo de um domínio Italiano ou Holandês da europa.
As ambições Russas, portanto, são sempre travadas pelos recursos. Existem pessoas megalómanas, mas não existem megalómanos sem os recursos necessários à sua concretização. A Rússia, devido à sua geografia, sente-se mais segura a expandir-se o mais possível até regiões-tampão, como montanhas e rios em que seja mais difícil ao inimigo começar uma ofensiva. Essa interesse russo sempre existiu devido ao vasto território difícil de defender, mas é travado pela falta de recursos hoje. Dito isto não creio que Putin tenha em mente nenhuma política de capturar regiões de leste, e nunca tomou ações bruscas antes de existirem provocações fortes da NATO, sempre prosseguiu com um elevado respeito por tratados internacionais e respeito pela soberania alheia.

Então qual é a razão para a fricção com a Rússia?

Quando Yeltsin era presidente Russo, fez um acordo com a NATO em que essa mesma organização se comprometia a não se expandir para leste, a países como a Ucrânia, Polónia, países bálticos, Hungria e por ai fora. Ora essa promessa foi quebrada pelo Ocidente, que pouco mais de uma década depois integrou quase todos esses países na esfera de influência da NATO e União Europeia.
A Rússia não retaliou na altura devido ao caos político e económico em que se encontrava, que só recentemente tem vindo a melhorar.
A Rússia aceitou essa expansão ilegítima ocidental de certa maneira, mas tenta evitar novas tentativas da NATO de se expandir no seu imediato próximo , que seria perigoso. Se formos a ver, a Rússia não teria resistido nem a Napoleão nem a Hitler se não tivesse esses vastos territórios que dificultam invasões do país.

Mais tarde, com uma Rússia mais reconstruída pelas receitas dos recursos naturais Putin conseguiu-se impor às expansões da NATO em territórios estratégicos russos.
A Geórgia e a Arménia controlam a entrada e saída de exércitos no Cáucaso , e Putin para dissuadir a anexação da Geórgia pela NATO mostrou os seus dentes afiados e evitou esse facto. Uma decisão certa em que não foi culpado.

Novamente a NATO tentou expandir-se para a Ucrânia, uma região vital para a defesa Russa e para a Rússia ser uma grande potência devido ao território e população.

A NATO ajudada pela União Europeia tentou depor um presidente democraticamente eleito da Ucrânia, para instalar um mais simpático a pretensões de entrar na União Europeia.
A Ucrânia tem vasta minoria Russa, tinha territórios que sempre pertenceram à Rússia e foi onde o Estado Russo nasceu. São países bastante semelhantes e só recentemente existe um sentimento independentista nesse território em relação aos russos.É um território historicamente russo.
A Ucrânia tinha também a mais importante base Naval Russa , em Sevastopol.

Tudo isto levou Putin a retaliar, primeiro fazendo pressão fechando o gás natural à Ucrânia durante uns anos, depois quando não funcionou anexando esse território importante de Sevastopol e ajudando na criação de rebeldes no leste, para dificultar a entrada da Ucrânia na NATO, visto que uma das necessidades é que existam fronteiras estáveis.

A que conclusão chego com estes factos?

A conclusão que se pode chegar é a de que a NATO e União Europeia estão a tentar retirar territórios vitais russos para expandir o seu poder e tornar a Rússia num estado isolado que será mais tarde ou mais cedo satélite.

Quer se concorde ou discorde desta acção, acho que deveríamos estar conscientes do perigo da mesma. É uma decisão perigosa e muito provavelmente desnecessária, que antagonizou o Estado Russo quanto ao Ocidente. E quais são os benefícios reais estratégicos? São poucos.
Na minha opinião é uma decisão insensata continuar a provocar esse país e entrar nas suas esferas de influência.
Qualquer guerra com a Rússia seria desastrosa e nem benefícios reais, quase tão insensata e estúpida como a Primeira Guerra Mundial.

Podia se calhar ter resumido este texto a meia dúzia de palavras:
Quem aqui quer realmente morrer por uns pedaços de estepes Ucranianas e Tundras Russas?
Eu não, obrigado.