Os heróis da nossa imagem e auto-estima na saúde e na doença!

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora

(dedico este artigo à minha Cabeleireira) 


Pensar em cabelos e cabeleireiros(as) ou barbeiros, imediatamente nos remete para os caminhos da vaidade ou em última paragem para a futilidade do ser humano, quando estes caminhos são percorridos em exagero.

Todos conhecemos alguém extremamente atento às últimas tendências, em cada uma das estações do ano, em matéria de cortes de cabelo e penteados.
Se não for um amigo de carne e osso a vender-nos a última tendência da moda será o Instagram ou o Pinterest, com os seus anúncios e publicações.
Recordo-me de ser criança e ouvir tantas vezes a minha mãe dizer que o cabelo é a moldura do nosso rosto e da nossa imagem.

Ensinou-me a mim e ao meu irmão a nunca sairmos de casa nem regressarmos a casa sem o cabelo e o calçado impecáveis.

Talvez seja esta valorização social inerente à beleza que esta moldura dá ao rosto o motivo para que os implantes capilares batam valores históricos um pouco por todo o mundo num tempo em que os procedimentos são cada vez menos invasivos e mais eficazes.

Um destes dias sentada na minha cabeleireira ela dizia-me :—”quando foi comigo eu quis ver-me careca”.

Referia-se ao dia em que após a primeira sessão de quimioterapia ao cancro da mama, foi rapar o cabelo e surpreendeu a cabeleireira que na época se emocionou, porque ela foi a primeira cliente a pedir para ver.
Os cabeleireiros especialistas no tratamento da imagem dos doentes oncológicos não costumam ter espelhos.

Os hospitais quer sejam públicos quer sejam privados fornecem aos seus pacientes uma lista onde é possível verificar a localização destes locais.
Debatemos ao longo dessa tarde como para algumas pessoas é melhor bater de cara com o problema ou seja enfrentar de imediato o choque de nos vermos carecas do que o fazer depois em casa muita das vezes completamente sozinhos.

Obviamente que nem todas as pessoas gerem a doença e as suas consequências da mesma forma.

Depois a conversa viajou para Barcelona onde existe uma empresa que cria perucas que são personalizadas ao crâneo de cada pessoa.

Disse-me com um sorriso no rosto que ainda guarda a dela, porque não sabemos o dia de amanhã. E acrescentou que já com o cabelo renascido, chegou a usar aquela peruca.
Existem heróis que nem sempre vestem um uniforme.

Heróis que têm a sensibilidade humana de devolver sorrisos aos outros mesmo que o tema em questão seja a imagem e a nossa auto-estima.
Quem nunca se sentiu mais leve e feliz após uma mudança de look?
Das depressões, aos processos oncológicos ou simplesmente aos dias menos bons dos caminhos da vida, obrigada cabeleireiros(as) e barbeiros das nossas vidas.

Vocês têm um papel importante, ainda que não pensemos habitualmente na importância deste papel porque vos transportamos usualmente apenas para os caminhos da vaidade.

Mas o vosso trabalho é muito mais do que isso, afinal de contas, são os escultores da moldura dos nossos rostos.


Artigo publicado no Jornal Audiência na Versão papel e Online