Sofar Sounds: que bom que foi o meu blind date com a música!

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora


Gosto de surpresas, de aventuras e do desconhecido. Gosto da energia que esta estirpe de experiências transportam e foi seguramente por isto que não só adorei, como me viciei com o formato dos concertos intimistas e secretos dos Sofar Sounds, que seguramente procurarei sempre que esteja numa cidade diferente do planeta.

Os Sofar (songs from a room) Sounds surgiram em Londres em 2009, através da mão de Rafe Offer que convidou oito amigos para um pequeno convívio num apartamento e um músico seu amigo, Dave Alexander. Partilharam bebidas, sentaram-se no chão, fizeram silêncio e consumiram todas as notas da música de Dave bem como as notas do relógio de parede, que decidiu embalar com o seu tic-tac esta especial audiência.

Desde aquele dia são 429 as cidades que acolhem mensalmente estes concertos secretos e intimistas envolvendo milhares de artistas e as suas audiências.
Os artistas são emergentes, ainda desconhecidos para o grande público, mas não é assim em todos os concertos. Nomes como Hozier, León Bridges, Karen O, Damien Rice e Bastille já passaram pelos Sofar Sounds.

A minha experiência começou com o registo que deves fazer no site oficial dos Sofar Sounds, depois só tens que esperar para verificar se foste incluído na lista de convidados que te permite obter duas entradas. Após esse registo, 48 horas antes do evento ficamos a conhecer o local e a hora do mesmo. Os eventos não são gratuitos, não existem bilhetes “reais”, mas existe um donativo que a organização te pede sendo estimado um valor de referência por pessoa, revertendo este valor directamente para os artistas e técnicos de som, o que me parece extremamente positivo para quem participa nestas sessões. É bom sentir que contribuímos ainda que de uma forma simbólica para aquilo que vamos ter a oportunidade de vivenciar. Os locais são inusitados, podendo ser uma cave de vinho do Porto, uma galeria de Arte, o museu da Imprensa ou até mesmo a tua casa, caso a disponibilizes no site oficial da organização.

A audiência naquele dia não ultrapassou as 80 pessoas, que envolvia várias faixas etárias todas a partir dos 21 anos de idade. O ambiente compôs-se por muitos casais e também por amigos que decidiram tal como eu aceitar o desafio Sofar que se propõe a “bringing the magic back to live music”.
Naquele espaço não existem encontrões, o álcool não perpetua a continuação do banho que tomaste naquela manhã como acontece em tantos festivais e concertos. O único ruído que ouves é o da música que de forma pura e bastante eficaz, seduz.
Ao teu lado senta-se o teu namorado(a) aquele amigo(a) com quem não gostas de falhar uma experiência diferente ou aquela pessoa com quem estás apenas pela segunda vez e cujo olhar periférico te queima a espinha e enche-te o estômago das borboletas que a música intimista promete implodir.
Do teu outro lado pode muito bem-estar sentado, aquela pessoa anónima e desconhecida que no Tinder real da vida te poderá fazer sorrir.

Naquele dia os Royal Bermuda de quem já era fã abriram as hostilidades o que até me deu um pequeno “arrepio” quando os vi. Quem não gosta de ter a dois passos os artistas que gosta?
À guitarra dona e senhora de André Parafina e Diogo Esparteiro com “Paraíso Cafajeste”, seguiu-se o hip-hop de Russa cumprindo pelo menos em mim o grande objetivo dos Sofar. Não ouço hip-hop, ainda que faça cada vez mais parte das batidas dos nossos dias, mas devo confessar que depois de ouvir aquela jovem imaginei-me claramente a ouvir um concerto seu inteiro de fio a pavio debitando a intervenção rebelde das suas letras. E por fim os Rackham finalizaram as hostilidades.

Saldo final, ouvi 3 concertos que não estava à espera, podendo sentir a mensagem de cada um daqueles artistas semicerrando os olhos quando bem me apetecesse. O ambiente ali era de pura harmonia e relação com a música.
Achei bastante curioso a organização aproveitar a mobilidade dos artistas nas suas próprias digressões para os encaixar nestes eventos. Chamo a isto a arte de bem fazer, para não falar como é bom dar a conhecer ao público o imenso talento que existe em Portugal mas que tantas vezes não conhecemos, porque nem sempre chega até nós.

Os Sofar Sounds estão claramente a democratizar a música, e os seus distintos estilos neste formato absolutamente delicioso e algo romântico de blind date.
Missão cumprida Rafe Offer, até à próxima gig!

(será publicado à posteriori a fotografia da edição papel deste artigo em jornal e a sua versão online)