Todas as profissões são importantes!

Mafalda G. Moutinho

Bisturi Fundadora/Editora


As imagens do rio de lixo que assombrou as Filipinas ficaram gravadas na memória do meu hipocampo e saltaram para o ecrã da minha córnea quando impedi de forma subtil uma cidadã de depositar descontraidamente o seu lixo na caixa do supermercado.
Seguiu-se a esse episódio um encolher de ombros da funcionária e as seguintes palavras: “já estou habituada, algumas pessoas julgam que eu e a caixa somos um caixote de lixo”.
Nunca pensamos nisto, mas da mesma forma que a cadeia alimentar deixa de funcionar se uma espécie animal deixar de ingerir a outra o mesmo acontece com as profissões.
O que seria das nossas vidas se não existissem por exemplo varredores de lixo que impedem que vivamos submersos no lixo que fazemos?
O que seria das nossas vidas se não existissem bombeiros, dispostos a arriscar a vida pela vida e pelos pelos bens materiais dos cidadãos?
O que seria de mim, se ao ter o wc entupido não me recordasse daquele cartão que me fez sorrir com o nome: cirurgião de esgotos?
Nesse dia recordo-me de pensar para os meus botões o quão bom seria ter tido uns bons workshops de pichelaria e de fazer uma lista de coisas que queria definitivamente aprender de forma básica a curto/médio prazo para não me ver sozinha numa súbita aflição doméstica.
Todas as profissões são importantes e todas as pessoas que as desempenham merecem o nosso respeito e a nossa admiração.
Ouvia noutro dia a funcionária do café dizer: — ” ele não é muito bom na escola mas eu não me importo, só quero que o meu filho tenha uma profissão.”
Por essa mesma altura e por coincidência ouvia a directora de uma empresa contar-me como o marido fez o secundário apenas com um daqueles cadernos pretos. E seguiu-se a mesma frase:— “se o João for como o pai e não quiser ir para a universidade, eu só quero que ele tenha uma profissão”.
Esta frase dita por duas pessoas de contextos profissionais diferentes em relação às suas expectativas para as vidas dos seus filhos fez-me  sorrir.
Não as ouvi dizer que queriam médicos em casa ou engenheiros, ou diplomados de outra qualquer área.
Ao invés ouvi aquelas duas mulheres dizer que apenas queriam que os filhos tivessem um ofício que garantisse a sua independência.
Quantas pessoas não vivem frustradas porque o canudo que tiraram numa universidade não tem empregabilidade na vida real?
Quantos não vivem ainda em casa dos seus progenitores quando no espelho têm de enfrentar um rosto já bem adulto?
Os que viveram noutros tempos seguramente recordam o prestígio que as escolas industriais tinham.
O Engenheiro Ernesto, engenheiro de electrotecnia e de máquinas e homem desse tempo costuma contar-me com um incrível brilho nos olhos a experiência que ele teve numa escola industrial antes de frequentar a universidade. Por vezes fico com a ideia que ele aprendeu muito mais lá para o desempenho da sua profissão que à posteriori no mar de livros que a universidade o fez naturalmente estudar.
Não estou obviamente com isto a desprestigiar o ensino universitário apenas acho que temos de nos deixar de frescuras e de títulos e de valorizar tudo e todos pelas suas competências e conhecimentos independentemente de onde eles são adquiridos e desenvolvidos.
A escola do futuro deve ser uma escola de competências e uma escola de progresso.
E a escola do presente deve ser a escola que sabe olhar para o passado para entender e investir mais nas escolas e nos cursos profissionais.
O país necessita de profissionais em todas as áreas e ofícios, porque através de canudos e de títulos não está garantida nenhuma forma de sobrevivência humana… 
Não tenhamos vergonha de sermos apenas senhores ou senhoras o que nem sempre é fácil, antes de nos florearmos de títulos para a frente e para trás.