Viagem a 2018 por Miguel Pedro Araújo | Parte II

Miguel Pedro Araújo 

Bisturi Cronista 


A história da Humanidade, ao longo dos séculos (AC e DC), sempre teve períodos, mais ou menos longos, de conflitualidade entre os homens e os povos/nações. Foi, também, nesses contextos que as civilizações delinearam os seus futuros.
No período contemporâneo, na primeira metade do século XX, as duas Grandes Guerras (1914-1918 e 1939-1945) foram o reflexo visível dessa conflitualidade.
No entanto, o Mundo soube sempre acolher períodos alargados de paz (ou alguma paz) e de coabitação entre as Nações, mesmo no chamado período da “Guerra Fria”. Até que chega a data de 11 de setembro de 2001, precedida, uma década antes, pela Guerra do Golfo (1990-1991) e imediatamente sucedida pela invasão do Iraque (março de 2003). Desde então o Mundo deixou de ser seguro e pacífico, tolerante e inclusivo, promotor dos Direitos Humanos e da Igualdade, Fraternidade e Liberdade.
Volvidos que estão 28 anos (1990-2018) este ano que agora se presta a terminar é, infelizmente, o espelho dessa realidade: conflitualidade geopolítica e geoestratégica permanente, terrorismo, desprezo pelos valores e pela dignidade humana, crescimento dos extremismos e dos populismos.
Atentados, ataques, violência, manifestações de intolerância, racismo, xenofobia e homofobia, fome, guerra, violação das liberdades e direitos fundamentais, são alguns contextos que descrevem o retrato do ano de 2018. Aos quais podemos ainda adicionar uma natureza madrasta, como que a querer vingar a maneira como o Homem a vai (mal) tratando e desprezando.

da Guerra…
O Médio Oriente, juntamente com África Subsaariana e Central, são duas zonas do globo em permanente explosão. A guerra civil na Síria, em sete anos (2011-2018) matou mais de 511 mil pessoas, das quais cerca de 40 mil neste ano, desalojou 5,6 milhões de sírios, dos quais 2,6 milhões são crianças. Geograficamente mais patente na região de Guta, Damasco, o conflito e os seus impactos estão ainda longe de terem terminado, apesar do recente, e internamente polémico, anúncio de Donald Trump de retirar as forças americanas da região (o Estado Islâmico agradece).
Dura desde 1948 o conflito que opõe Israel à Palestina, tendo a Cisjordânia, o Líbano e a Síria como fronteiras, sem esquecer o histórico colonialista britânico (1917-1947). Após um considerável número de acordos, de avanços e recuos, a conflitualidade naquela zona, onde a Faixa de Gaza é o seu expoente, é diária mas conheceu em 2018 um exponencial de atentados e vítimas que já há alguns anos não se conhecia: 265 incidentes/atentados resultaram em 14 israelitas mortos e 137 feridos; já no que respeita aos palestinianos os dados oficiais indicam 295 mortos e mais de 29 mil feridos (segundo dados da OCHA/ONU). Importa ainda recordar que foi em maio deste ano (14 de maio) que Trump ordenou a mudança da Embaixada Americana de Tel Aviv para Jerusalém.
Mas é o Continente Africano que regista o maior número de conflitos, mortes, feridos, desaparecidos, desalojados, fome e pobreza: Argélia, Burundi, Chade, Egito, Libéria, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Saara Ocidental, Somália, Sudão, Tunísia, Uganda, entre outros conflitos regionais, étnicos e políticos. Só na última década a ONU estima que morreram, por força da guerra neste continente, cerca 5 milhões de crianças com idade inferior a 5 anos.

dos Direitos Humanos…
São diferenciadas as formas e diversos os contextos de violação dos mais elementares e fundamentais direitos humanos: contra a vida e a sua dignidade, o direito à diferença, a liberdade de pensar e exprimir, a alimentação, a saúde, o trabalho, a habitação, a paz e a segurança.
O ano de 2018 foi, infelizmente, repleto de realidades que merecem nota de destaque para que não se apague a memória, por uma questão de respeito, de solidariedade, de alerta. E para prestar merecida homenagem e tributo aos mais de 300 ativitas mortos no mundo, só porque não qquiseram deixar de defender os maisl elementares direitos universais. Destes, tornou-se rosto mediático a ativista e política brasileira (a América Latina é a região com mais ativitas mortos, presos, torturados e perseguidos) Marielle Franco, crítica da ações indiscriminadas da Polícia Militar, política em ascensão (apontada como eventual prefeita do Rio de Janeiro ou deputada federal em Brasília), assassinada aos 38 aanos, em março de 2018.
Além disso, o Mundo, em 2018, não soube, não quis, foi incapaz, foi indiferente, falhou na protecção das crianças. Na República Centro Africana a UNICEF estima que 1,5 milhões de crianças necessitam de ajuda humanitária. 5.000 crianças foram mortas ou mutiladas no Afeganistão. 4,2 milhões de crianças encontram-se em risco de desnutrição aguda grave na República Democrática do Congo. Cerca de 1.800 crianças foram recrutadas na Somália para a guerra. No conflito na Síria, o tal que Trump diz já não existir, 870 menores foram mortos. No Iémen, para além das 5,2 milhões de crianças que se encontram em risco de fome, 1.427 foram assassinadas em 2018.
Mas os conflitos armados não contemplam apenas a morte e a fome. O número de deslocados e refugiados é assustador: a ONU estima em mais de 68,5 milhões de pessoas. No caso dos refugiados, assunto que tem assombrado a União Europeia pela inoperância e incapacidade política e social em o enfrentar, o ano de 2018 foi relativamente próximo (embora “em baixa”) de 2017 e, felizmente, longe dos valores mais altos da última década. Mesmo assim, o movimento de refugiados no mediterrâneo ainda foi significativo: mais de 118 mil migrantes chegaram, por via marítima, à Europa e 2.241 pessoas morreram durante a travessia.
A questão das migrações e dos refugiados conheceu, em 2018, um especial relevo no continente americano, não estando muito longe, na dimensão dos refugiados que chegam à Europa oriundos do Médio Oriente e do Norte de África. A crise humanitária na América Central e do Sul, sustentada na pobreza, na falta de trabalho, na instabilidade política e nos conflitos armados, em países com a Venezuela, El Salvador, Honduras, Guatemala, Nicarágua (134 mortos desde abril nos confrontos contra o governo), levou cerca de 200 mil migrante até ao sul do México na expectativa desesperada de entrarem nos Estados Unidos.
No país onde supostamente a liberdade e a segurança são referência histórica centenas de milhares de americanos tomaram as ruas nas cidades dos Estados Unidos no maior protesto pelo controle de armas chocados por mais um massacre numa escola na Flórida, em março.
São já cerca de 700 mil refugiados Rohingya que fugiram de uma campanha militar brutal em Mianmar (antiga Birmânia) para o Bangladesh, crianças pequenas massacradas diante dos pais, raparigas e mulheres violadas em grupo enquanto as suas famílias são torturadas e mortas, aldeias incendiadas e arrasadas.
Mas é também nos países ditos civilizados que o ano de 2018 assinalou atropelos aos Direitos Humanos inadmissíveis em pleno século XXI. Por exemplo, neste ano, no Japão, foram realizadas 15 execuções por enforcamento.
Destaque, em 2018, para a atribuição (dupla) do prémio Nobel da Paz, distinção envolta em algumas polémicas como, por exemplo, a manutenção do Nobel (2012) à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; ou a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh. Finalmente, este ano, regressa a “normalidade”: oO Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, “pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado” (ambos Prémio Sakharov em 2016). Denis Mukwege é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora. Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 2014, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses depois conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra (é a primeira Embaixadora da Boa Vontade para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano das Nações Unidas).

das Tragédias Naturais…
A “mãe” natureza marcou, de forma assustadora e trágica o ano de 2018, com inúmeras mortes e uma devastação de dimensões sinistra.